O histórico de crescimento do transporte individual no Brasil é um grande problema para o desenvolvimento sustentável e para o bom funcionamento das cidades.

A mobilidade urbana é um dos maiores desafios das cidades pelo mundo. Devido à necessidade de circulação das pessoas, a invenção do automóvel parecia ser uma resposta eficiente, mas gerou outros problemas antes impensáveis.

A priorização do transporte individual motorizado (carro e moto) somada ao crescimento não planejado fez com que nossas cidades perdessem a capacidade de permitir que as pessoas se movessem com qualidade gerando, assim, impactos negativos e por vezes, irreversíveis para as cidades, para as pessoas e principalmente para o planeta.

Diariamente, toneladas de poluentes são lançados na atmosfera impactando diretamente no meio ambiente e na saúde das pessoas.

São Paulo, por exemplo, possui aproximadamente 7 milhões de veículos, segundo dados dos Relatórios de Emissões Veiculares da Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), sendo que 34% desses veículos utilizam tecnologias defasadas que impactam ainda mais na poluição atmosférica por terem mais de 20 anos de uso.

Os números são preocupantes e nos obrigam a discutir mobilidade e impacto ambiental como questões fundamentais para a qualidade de vida das pessoas de forma sustentável.

Vítimas das armadilhas da cultura consumista e da política míope do poder público, que enxerga na indústria automobilística um sinal de progresso social e econômico, as pessoas estão distantes da consciência de que a priorização do transporte individual é incompatível com uma boa qualidade de vida e com o desenvolvimento sustentável das cidades.

O Brasil figura na quarta posição dos países com mais mortes no trânsito e o caminho mais apropriado para reduzir essas mortes passa pela adaptação urbanística aos diferentes meios de transporte existentes, priorizando aqueles de transporte coletivo e os não poluentes, alterações nas legislações vigentes e educação socioambiental.

Mobilidade urbana também é questão de saúde pública.  A Organização Mundial de Saúde (OMS) tem alertado para os efeitos que os gases emitidos pelos veículos impactam na saúde da população mundial.

Segundo a entidade, há evidências de que a poluição causada pelos veículos pode aumentar o risco de morte devido a problemas cardiopulmonares. Além do estresse emocional, causado pelos engarrafamentos, que pode acarretar problemas psíquicos.

Não é necessário muito para constatarmos que os prejuízos são, ao mesmo tempo, sociais, ambientais e econômicos.

Ou seja, é preciso revolucionarmos a maneira como nos locomovemos para realizar nossas relações econômicas e sociais, principalmente nos meios urbanos, renunciando à falsa ideia de conforto que o automóvel proporciona e pensando mais na sustentabilidade e bem-estar da população mundial.

As cidades que possuem os melhores sistemas de transporte são aquelas que consideram soluções práticas, socialmente justas, economicamente viáveis e ambientalmente adequadas.

Ou seja, desenvolvem projetos e soluções voltados para as pessoas e não para os veículos. Esse pensamento está distante de boa parte das prefeituras brasileiras que possuem uma visão errada do conceito de mobilidade urbana.

Grande parte dos gestores públicos focam os investimentos nos projetos que beneficiam os proprietários de carros, como por exemplo, construindo e reformando ruas e avenidas, o que só agrava o problema dos engarrafamentos nas cidades.

Para viabilizar uma mobilidade urbana sustentável são necessárias medidas que levem em consideração a quantidade de deslocamento e a extensão dos mesmos.

Ou seja, é preciso reduzir o deslocamento das pessoas fazendo com que haja disponibilidade de serviços próximos às áreas residenciais, descentralizando os polos de negócio e comércio.

Outro ponto não menos importante é a racionalização dos sistemas de transporte com um planejamento que considere os modos existentes avaliando de forma criteriosa o consumo específico de energia de cada um deles e os aspectos e impactos ambientais decorrentes de sua utilização.

Individualmente, a maneira que cada um pode contribuir para mitigar danos ou ao menos reduzi-los é integrando-se de forma profunda às questões de sustentabilidade.

É preciso mudar nossa maneira de agir e pensar. Afinal, as escolhas que fazemos diariamente têm impacto no nosso futuro, das demais pessoas e do planeta.

Na próxima vez que sair de casa faça sua escolha com parcimônia e, de preferência, ao uso de meios de transporte compartilhados.  Cobre as autoridades locais e participe dos comitês de discussões sobre o tema.

Participe ativamente do processo de transformação cultural, necessário para que possamos viver num ambiente de boa qualidade de vida, menos conturbado e mais eficiente, satisfazendo nossas necessidades e garantindo a disponibilização de recursos para as gerações futuras.