Responda rapidamente:

Você, hoje, vive a sua vida com prazer?

O que é sucesso para você?

Você gostaria de desacelerar seu ritmo de vida para viver melhor?

Foi ao responder estas perguntas que aderi ao chamado Movimento Slow. Como tantos outros profissionais bem-sucedidos, durante muito tempo  achava que o sucesso estava relacionado à metáfora do comercial de margarina e, por anos, vivi assim.

Posso afirmar que fui feliz em toda a minha vida, inclusive profissional. Só que, com o tempo, meu conceito de felicidade mudou. Logo depois que completei 30 anos tive a minha primeira crise de estresse e ansiedade. Foi quando um amigo me presenteou com um romance autobiográfico que mudou minha vida, pois me apresentou uma nova maneira de existir, muito mais simples e satisfatória.

Hoje, aos 43 anos, desacelerei. Divido meu tempo principalmente entre mimar a filha de 4 patas, Maria Mole, estudar Psicossíntese e aproveitar ao máximo a vivência do segundo de meus 3 anos sabáticos, bastante reformulados por causa da Covid-19.

No final de 2019, de maneira bastante planejada, deixei um emprego estável e 25 anos de Gastronomia para formar uma comunidade pautada nos preceitos do Movimento Slow. No começo, confesso que só queria ter com quem conversar abertamente sobre o assunto.

Aí veio a pandemia, e se antes o lema de vida quase consensual era produzir, agora ele tinha mudado para desacelerar. Pensando nessa dicotomia comecei a escrever um livro sobre o assunto, colocando no papel mais de dez anos de estudos e, ainda, escancarando todos meus erros e acertos na busca pelo simples.

Entretanto, quis a vida que entre a escrita e a edição vários eventos ocorressem para que o projeto viesse ao mundo não como livro, mas como jornada vivencial online e com suporte individualizado do começo ao fim. Chamada de ‘365 Convites para Desacelerar’, a iniciativa acolhe aquelas pessoas que desejam usufruir de uma vida em conformidade com as respostas daquelas 3 perguntas lançadas ao início desse texto, mas que ao observarem criticamente suas realidades não conseguem enxergar como fazer isso, muito menos de maneira sustentável.

Mas, o que significa esse tal de Slow?

Em meados dos anos 80, o jornalista Carlo Petrini fundou o Movimento Slow Food, na Itália. Foi a partir dele que o assunto da desaceleração tomou corpo e cresceu. O chamado para rever nossos hábitos relacionados à cadeia da mesa foi expandindo para outras áreas como, por exemplo, a da beleza (Slow Beauty), das viagens (Slow Travel), da moda (Slow Fashion) e do urbanismo (Slow Cities) até chegar numa concepção mais ampla, a Slow Life, que se propõe a acomodar todas as esferas da nossa vida.

Em ‘Metamorfoses da Maturidade’, em que sou coautora, eu diria que Slow Life se refere a uma busca cuidadosa por mais qualidade de vida. Por mais resultados concretos naquelas esferas que de fato nos fazem sentido.

É usar o tempo a nosso favor, ao invés de sair distribuindo-o (e quiçá desperdiçando-o) em tarefas, relacionamentos ou quaisquer assuntos que não comunguem diretamente com nossas próprias e muito bem deliberadas escolhas.

É até mesmo agir em velocidade rápida quando e se necessário, mas com maior e mais responsável domínio do velocímetro. Significa encontrar – e desfrutar – o real prazer em viver. Não um prazer qualquer, hedonista ou desprovido de intenção. Um prazer mais maduro, em paz consigo, com o tempo e com o universo.

Como aderir à Slow Life?

O passo fundamental é decidir desacelerar, trilhar um caminho próprio, mais natural e fluído. Dizer basta ao ritmo frenético que está sendo imposto, apesar de compreender que a aceleração é mais um dos muitos problemas estruturais que enfrentamos.

A partir daí, vários roteiros são possíveis, já que nenhuma solução individual vai se encaixar na realidade de toda e qualquer pessoa.

Ainda assim, há uma linha mestra que pode ser modelada, baseada no que considero como os 4 pilares da Slow Life:

Autoconhecimento: Quem é você, o interno, quando se afasta e se liberta do externo? Quais seus ritmos e fluxos naturais? Por quanto tempo você consegue se manter focado numa mesma tarefa, extraindo prazer dela? O que agrega contentamento às suas atividades? O que seria preciso para acrescentar um toque de deleite às ocupações chatas, mas necessárias? Tudo isso, o autoconhecimento pode ajudar a responder.

Presença:  O antídoto contra o “piloto automático”. A presença não sobrevive a uma rotina desalinhada em relação a si mesmo ou a uma agenda que prioriza a próxima tarefa numa lista infinita, irreal e indesejada. Estar presente depende de uma escolha consciente não só com relação ao quê, mas também ao porquê e ao como de cada opção.

Coragem : É necessária uma boa dose de brio para bancar valores e desejos, passar por cima das próprias desculpas e respirar fundo com os julgamentos que, com certeza, virão. E, se de qualquer forma, somos e seremos criticados, então, que sejamos julgados pelas coisas tocam nosso coração e nossa alma.

Ação: Uma atrás da outra, mesmo que cada uma em seu devido tempo e respeitando suas reais possibilidades.

Finalmente, é recomendado transformar o desejo de desacelerar em um projeto de vida, afinal, a busca pelo prazer em viver não merece ficar no campo dos sonhos, o que acontece quando não assumimos conosco um compromisso mais efetivo.

Considere estabelecer um projeto de vida que respeite suas possibilidades, seus ritmos, seu momento. Slow Life é um estilo de vida, e a gente não muda do dia para a noite.

Existe o que é possível fazer agora, que são pequenas mudanças superficiais, e o que a gente se programa para fazer em longo prazo, como, por exemplo, uma possível transição de carreira. E aí tem o COMO fazer: vai ser no Modo Fast ou no Modo Slow?