Na pandemia, muita gente prometeu a si mesmo uma reinvenção ou mesmo pensou em começar um hobby ou esporte novo. Mas na hora de colocar o plano na prática, nem sempre é fácil assim.

Isso, pois hábitos são uma resposta padrão do nosso cérebro, criada por conta da repetição de determinada atitude, seja ela positiva ou negativa, com o intuito de conservar energia.

O hábito já existente apresenta um circuito neural em nosso cérebro, e para ser ‘quebrado’ precisa ser desafiado para criar um novo circuito.

Assim, a resistência em criar novos hábitos é perfeitamente natural por requerer um esforço, um gasto energético adicional ao qual o nosso cérebro não estava habituado.

A neurociência aponta alguns conhecimentos essenciais que nos ajudam a criar novos hábitos. Por exemplo, ‘encaixar’ um novo hábito em uma rotina já existente facilita o processo de incorporar essa nova atividade mais rapidamente.

Assim, quanto mais você realizar a mesma sequência de hábitos, mais esta trilha ficará marcada e assim, naturalmente a nova ação será efetivamente incorporada.

Além disso, de acordo com Shawn Achor, pesquisador da Universidade de Harvard: “se você puder fazer o novo hábito ficar de 3 a 20 segundos mais fácil de começar, suas chances de realizá-lo aumentam drasticamente.”

Assim, se quiser aprender a tocar violão, correr, comer de forma mais saudável, a dica é deixar o violão, o tênis e os alimentos saudáveis fáceis e à mão. Nesse mesmo sentido, deixe o que pode sabotar você (por exemplo, alimentos não saudáveis) distante e de difícil acesso.

Mais um fator decisivo para dar um start em algo novo é ter uma intenção forte. O que pode ajudar nisso é ter uma rede de apoio, seja de familiares, amigos ou mesmo desconhecidos com o mesmo desafio em comum, pois ela nos ajuda a manter a motivação mesmo nos momentos mais desafiadores ou quando estamos sem energia para prosseguir. Além desse apoio, ser compreensível consigo mesmo, saber que você pode melhorar sempre, é o apoio mais importante que a pessoa deve receber.

Além da intenção bem definida e do apoio interno e externo, o primeiro passo para colocar um novo hábito em sua rotina é ter uma espécie de plano de aprendizado, onde o indivíduo deixa muito claro o ‘porquê’ está fazendo isso, ‘como’ irá consegui-lo – quais estratégias irá adotar – e ‘o que’, ou seja, quais ferramentas e recursos necessitará para conquistar o objetivo.

Em seguida, após algumas repetições, é necessário avaliar as conquistas e, se necessário, aprender com os erros que o impediram ou dificultaram a criação do novo hábito.

A partir disso definem-se novas estratégias para retomar a trajetória rumo ao atingimento do objetivo inicialmente proposto.

Nessa fase, a pessoa deve também comemorar as pequenas vitórias, justamente para fortalecer o Sistema de Recompensa cerebral, visto que ele é uma área essencial para a criação de novos hábitos e o estimulará, por meio da liberação de hormônios relacionados ao prazer, a repetir aquela ação.

Finalmente, por meio da repetição, os novos hábitos se tornarão cada vez mais naturais e automatizados requerendo cada vez menos energia, conforme o novo circuito neural é criado no cérebro. Em outras palavras, quanto mais você repeti-lo, mais fácil será.

Vale lembrar como funciona o sistema de recompensa cerebral, chave para criar um hábito novo. Este é o circuito que processa a informação relacionada à sensação de prazer ou de satisfação.

Quando realizamos uma ação que nos dá prazer, temos uma liberação de dopamina no nosso cérebro, que é um neurotransmissor que ativa este sistema. Ou seja, sempre que executamos aquela ação, cria-se um desejo de repeti-la, sendo esse o motivo por ser tão difícil largar velhos hábitos.

No entanto, podemos usar este mecanismo também para criar novos hábitos. Suponha que a pessoa ame brigadeiros. Toda vez que come um brigadeiro, este sistema é acionado, fazendo com que ela queira repetir esta ação.

Mas caso esteja exagerando na dose e queira reduzir o consumo do doce, o indivíduo pode criar outra forma de sentir prazer com aquilo.

Como? Por exemplo, toda vez que conseguir dizer não para o brigadeiro, ele mentalmente vai se parabenizar por isso, criando um valor emocional positivo. Ou toda vez que comer um alimento mais saudável ao invés do doce, poderá pensar em como é bom se cuidar, que o seu corpo merece este cuidado.

Trata-se de substituir o prazer de uma coisa pelo prazer de outra. Desde que seja repetida diversas vezes, esta ação remodelará o cérebro de uma forma que seja mais positiva para o indivíduo.

A repetição é crucial, visto que é justamente ela que permitirá o desenvolvimento de uma nova trilha cerebral que criará um novo circuito neural, permitindo assim o desenvolvimento de um novo hábito.