Assim como saúde não é a ausência de doenças (conforme define a Organização Mundial de Saúde), felicidade não pode ser identificada pela falta de crises.

Imagine um copo d’água com um pouco de açúcar decantado no fundo. Em um primeiro olhar, notamos a água límpida e cristalina, porém ao agitar o copo vemos a substância doce emergir, e o liquido fica turvo.

Nos momentos de relativa calmaria, nossos problemas emocionais também ficam sedimentados e quase imperceptíveis como o açúcar.

Uma pequena instabilidade provoca um balanço, um desconforto grande para mostrar que o escondido na base não é o mesmo que resolvido.

A pandemia me obrigou a tomar decisões muito sérias e rápidas, como mudar de casa, trocar meus filhos de escola e redirecionar minha carreira profissional. Mas não foi o panorama recente que causou esses desafios.

Eram temas que eu vinha varrendo para debaixo do tapete e empurrando com a barriga bem antes de a pandemia chegar. A crise apenas ressaltou minha procrastinação.

Suponha que sua vida tenha sido virada do avesso devido à crise mundial atual. É importante perceber que, por mais que o cenário circunstancial seja adverso, ele funciona como um pequeno gatilho e não como a causa principal daquilo que nos incomoda.

A agitação só torna a água turva se houver sedimentos no fundo. Digamos que você tenha engordado muito nestes tempos de isolamento. Culpar o coronavírus não ajuda a emagrecer, já que a pandemia representa a mão que agitou o seu copo.

Possivelmente existem circuitos cerebrais dentro da sua cabeça que disparam a compulsão por comer em situações estressantes. E tais circuitos não foram criados agora. Eles são antigos e profundos.

Não é fugindo das mãos que agitam o nosso copo que teremos um futuro próspero. Precisamos transformar os caminhos neurais inadequados a fim de produzirmos mais saúde mental.

Explorar e trabalhar o que temos de mal guardado e mal digerido em nossos cofres emocionais pode, de fato, nos tornar resilientes a novas intempéries.

Por mais desafiador e incômodo que seja, deixando nossa vida transitoriamente nebulosa, há sempre um néctar nos aguardando ao final dessa travessia.