O clima é de guerra; sim, não apenas sobre os aspectos sanitário e de saúde, mas sobre os impactos econômicos vindos do Covid-19.

As primeiras estimativas trazem uma queda de mais de 25% em sua economia nos dois primeiros meses; ainda não temos dados do mês de março.

Naturalmente esse resultado já foi sentido nas economias mundo afora. E agravado pelas incertezas do que virá pela frente.

Diante de tantas medidas restritivas de circulação entre pessoas das cidades, estados e países seria inevitável seus reflexos na economia real, afetando toda uma cadeia de produção de bens e serviços, e consequentemente o nível de emprego.

Para piorar, o vírus se espalhou pelo mundo e com ele suas consequências.

Do ponto de vista econômico, as primeiras estimativas preliminares apontam uma queda de mais de 20% na economia global este ano, o que seria uma fotografia catastrófica para a economia global.

Facilmente refletirão o nível de demissões dos trabalhadores mundo afora.

A própria Organização Internacional do Trabalho (OIT) estima uma perda de 25 milhões de empregos decorrente desta crise.

Essa estimativa faz todo sentido, até porque essa situação poderá perdurar até meados de outubro deste ano, comprometendo significativamente a economia real.

Os governos estão utilizando todas as suas ferramentas fiscais, monetárias e cambiais para mitigar a gravidade das consequências econômicas da pandemia.

Em linhas gerais as medidas governamentais têm sido na direção da adoção de uma politica monetária e fiscal expansionistas.

A monetária ocorre quando o governo busca promover um estímulo (linhas de créditos, etc.) para que a economia se fortaleça.

Política fiscal expansionista, quando o governo exerce uma política de gastos focada em reduzir tributos e aumentar os gastos públicos para dar liquidez às empresas.

No entanto, apesar de bilhões ou mesmos trilhões de dólares serem utilizados para mitigar os reflexos negativos das enormes perdas na economia, já vemos sinais claros de demissões em massa acontecendo em vários países.

E no Brasil, afinal, o que o nosso governo vem fazendo para que a situação não tome proporções catastróficas?

Sob o ponto de vista fiscal, muito pouco. Sob o ponto de vista da política monetária, algumas medidas foram adotadas, embora muito aquém do necessário diante da gravidade deste quadro.

Já anunciada pelo BC, temos a redução da alíquota de recolhimento compulsório sobre recursos a prazo de 31% para 25%, o que representa a liberação de R$ 49 bilhões no sistema bancário, em vigor desde o dia 16/03.

Tivemos também a redução da parcela dos recolhimentos compulsórios considerados no Indicador de Liquidez de Curto Prazo (LCR) dos bancos.

Essa medida libera outros R$ 86 bilhões para que os bancos possam emprestar. Mas isso não significa, na prática, liberação de crédito.

Do pacote de R$ 147 bilhões que o ministro Guedes alardeia, na verdade trata-se de dinheiro antecipado e não dinheiro novo; explico: Dos R$ 83,4 bilhões para os ‘mais vulneráveis’ e R$ 59,4 bilhões para ‘evitar desemprego’, esse dinheiro é na verdade apenas uma antecipação de um direito que já é do trabalhador.

Dos R$ 83,4 bilhões, R$ 46 bilhões é antecipação do 13ª salário, ou seja, o governo libera agora e lá na frente o aposentado não terá recursos para as festas de final de ano, o que certamente afetará o comércio; R$ 21,5 bilhões do dinheiro do PIS/PASEP, dinheiro do próprio trabalhador; R$ 12,8 bilhões do abono salarial, dinheiro do trabalhador; e R$ 3,1 bilhões de ampliação do ‘Bolsa Família’, que na verdade correspondem à reposição de metade do que o governo cortou ano passado.

De tudo o que o governo coloca como garantia dos empregos, vamos ser honestos, não passa de paliativos; vejamos: Dos R$ 59,4 bilhões distribuídos, R$ 30,0 bilhões se tratam apenas do adiamento do recolhimento do FGTS pelas empresas, por três meses.

Essa conta virá lá na frente, portanto em algum momento terá que ser paga pelo empregador; R$ 22,2 bilhões se tratam do adiamento de parte da União, do recolhimento dos impostos do Simples Nacional por três meses, que também terão que ser pagos mais à frente; R$ 5,0 bilhões do Proger/FAT para crédito às micros e pequenas empresas (é bom lembrar que isso representa apenas 1% da demanda para o setor, já que o mesmo movimenta mais de 500 bilhões de reais).

Sem falar da burocracia para tomada de créditos por este setor da economia; R$ 2,2 bilhões, redução de 50% nas contribuições do Sistema S por três meses.

Enfim, enquanto os governos no mundo entenderam a gravidade do que está acontecendo e o que virá pela frente, tomando medidas necessárias para assegurar o equilíbrio de suas economias, empresas e empregos, aqui ainda padecemos de medidas fiscais e monetárias ao alcance de sua gravidade.

Não há como escapar da recessão – é fato, mas é possível mitigar suas consequências para que esta não se estenda por mais tempo do que o necessário.

Ou o governo adota medidas de caráter emergencial sob o ponto de vista expansionista fiscal e monetário, ou teremos uma recessão que trará uma quebradeira generalizada, especialmente entre os setores mais fragilizados do processo produtivo, e consequentemente, os trabalhadores.

Esse não é o momento de pensar em responsabilidade fiscal, e sim entender que o verdadeiro papel do Estado é promover o bem geral do seu povo e garantir a paz social e econômica de uma nação.

Governante que não entende essas responsabilidades, não terá legitimidade para continuar no cargo.