Nesta quarta-feira, 29, o plenário do STF suspendeu dois trechos da MP 927/20,  que autoriza empregadores a adotarem medidas extraordinárias referentes ao contrato de trabalho durante a pandemia do coronavírus.

O argumento comum é que a MP afronta direitos fundamentais dos trabalhadores, entre eles a proteção contra a despedida arbitrária ou sem justa causa.

Por maioria, os ministros mantiveram a validade dos principais pontos da MP 927, mas suspenderam o art. 29 – que estabelece que o coronavírus não é doença ocupacional – e o art. 31 – que flexibiliza a atuação dos auditores fiscais do trabalho.

Os dispositivos assim dispõem:

“Art. 29.  Os casos de contaminação pelo Covid-19 não serão considerados ocupacionais, exceto mediante comprovação do nexo causal.
Art. 31.  Durante o período de cento e oitenta dias, contado da data de entrada em vigor desta Medida Provisória, os Auditores Fiscais do Trabalho do Ministério da Economia atuarão de maneira orientadora (…)”.

Sete ações foram analisadas pelos ministros, e foram ajuizadas, respectivamente pelos partidos PDT – Partido Democrático Trabalhista (6.342), Rede Sustentabilidade (6.344), CNTM – Confederação Nacional dos Trabalhadores Metalúrgicos (6.346), PSB – Partido Socialista Brasileiro (6.348), PCdoB – Partido Comunista do Brasil (6.349), Solidariedade (6.352) e CNTI – Confederação Nacional dos Trabalhadores na Indústria (6.354).

Todas as entidades argumentam que a MP 927/20, fere direitos fundamentais dos trabalhadores, como a reserva à lei complementar e a proteção contra a despedida arbitrária ou sem justa causa.

Em 26 de março, o ministro Marco Aurélio indeferiu pedido de concessão de medida liminar em todas as ações, mantendo a eficácia da medida provisória.

O relator levou em conta que os acordos excepcionais firmados entre patrões e empregados para a manutenção do vínculo de emprego estão de acordo com as regras da CLT e os limites constitucionais.

Em 23/4, Marco Aurélio referendou a liminar, votando no sentido da validade da medida provisória.

Para ele, a medida visou “preservar empregos”.

Os ministros Dias Toffoli e Gilmar Mendes referendaram integralmente a liminar de Marco Aurélio.

De outro modo, o ministro Alexandre de Moraes referendou em parte, entendendo pela suspensão somente dos artigos 29 e 31.

Para o ministro, o artigo 29 deve ser suspenso porque acaba sendo algo “extremamente ofensivo” para inúmeros trabalhadores de atividades essenciais, que estão expostos ao vírus.

Moraes destacou que médicos, enfermeiros e motoboys também poderiam ser encaixados nesse dispositivo.

Quanto ao artigo 31, Moraes disse que não há razão para suspender o trabalho dos auditores.

Segundo o ministro, não pode haver uma fiscalização menor durante a pandemia, pois isso atenta contra a própria saúde do empregado e não auxilia no combate à pandemia.

O ministro Edson Fachin teve sete dissonâncias com relação ao voto do relator:

Quanto ao art. 2º: suspensão parcial para suprimir a eficácia do texto “que terá preponderância sobre os demais instrumentos normativos, legais e negociais, respeitados os limites estabelecidos na Constituição”.

Para Fachin, quando se estabelece a “preponderância” dos acordos individuais, cria-se uma hierarquia normativa entre acordo individual e lei, extrapolando os limites da sua própria competência normativa.

Quanto ao art. 4, parágrafo 5, diz o texto:

“O tempo de uso de aplicativos e programas de comunicação fora da jornada de trabalho normal do empregado não constitui tempo à disposição, regime de prontidão ou de sobreaviso, exceto se houver previsão em acordo individual ou coletivo.”

Fachin disse que tal artigo é inconstitucional, pois ao estipular tal previsão, o trecho torna possível a disponibilidade ilimitada do empregado a empregador, constituindo a ausência total de limites de sobrejornada de trabalho no regime de teletrabalho.

“Flagrantemente incompatível com a CF”, afirmou o ministro; e ainda, que o tempo de uso de aplicativos e programas de comunicação, no interesse exclusivo do trabalho, deve submeter-se às regras constitucionalmente estabelecidas para jornada e sobrejornada de trabalho.

No art. 14, caput, parágrafo 2º e art. 27, caput, parágrafo 2º: para dar interpretação  conforme a CF, a fim de explicitar que, se for o caso da celebração de acordos individuais, estes deverão submeter em seu disposto da MP 936.

No art. 15, parágrafos 1º – 3º; art. 16, parágrafo 1º e art. 17: suspensão integral dos artigos que versam sobre suspensão de exigências administrativas em segurança e saúde no trabalho;

Quanto aos arts. 29 e 31: suspensão integral.

Quanto ao art 36: suspensão por afronta à CF ao dizer que são consideradas convalidadas as medidas trabalhistas adotadas por empregadores que não contrariem o disposto na referida MP.

O ministro Luís Roberto Barroso esteve de acordo com o relator em todos os itens, exceto com relação a determinados pontos:

Referente ao art. 29 – sobre o tempo de uso de aplicativos e programas de comunicação fora da jornada de trabalho – pela inconstitucionalidade, acompanhando a divergência.

Quanto ao artigo 31, disse que é necessário haver uma interpretação conforme para que, mantendo a redação, em caso de recalcitrância, o auditor do trabalho fica investido  de seus poderes de multar e autuar, e não somente de orientar.

A ministra Rosa Weber acompanhou a divergência aberta pelo ministro Alexandre de Moraes e também acompanhou todos os pontos explicitados por Fachin, e ainda, agregou a suspensão parcial da eficácia do art. 3º inciso 6º e do art. 30 da MP, que versam sobre a suspensão de exigências administrativas em segurança e saúde no trabalho e os acordos e as convenções coletivos.

A ministra Cármen Lúcia acompanhou o voto de Alexandre de Moraes, validando a MP 927/20 em sua maior parte, mas entendeu pela suspensão dos arts. 29 e 31 (doença ocupacional e orientação dos auditores fiscais do trabalho).

O ministro Lewandowski enfatizou a importância de o STF analisar as MPs, sem prejuízo de futuramente passar pelo crivo do Congresso.

Assim, referendou parcialmente a liminar, para suspender alguns artigos.

São eles: art. 2º (parcialmente suspenso), arts. 3º, inciso 6º, 29 e 31.