A sociedade hodierna tem experimentado momentos de análise e práticas que alteraram diretamente o modus operandi ao qual estávamos habituados.

No contexto de pandemia em que estamos vivendo, surge um debate: A sociedade pode parar ou não deve parar?

Quando citamos a sociedade, destacamos principalmente o setor de produção, indústria, educação, comércio etc. Há que se dizer que o trabalho é um direito fundamental, garantido na Constituição Federal e para além traz consigo a dignidade humana.

Ao mesmo tempo em que há urgência em mantermos o trabalho diante da pandemia, ressurgem as discussões acerca do assédio moral.

E mesmo diante de tantas análises, enfrentamentos e a construção desse novo momento, o assédio moral precisa ser revisitado.

Na perspectiva em que o trabalho precisa continuar e a manutenção da vida é primordial, o contexto tecnológico surge como saída para que a máquina econômica não pare; uma alternativa foi a de buscar a opção do trabalho em casa, o chamado home office.

O IBGE (2018), mesmo antes da pandemia, já demonstrava que 3,8 milhões já atuavam em home office, e em 2020, 43% das empresas brasileiras adotaram o home office, conforme posto pela pesquisa Betania Tanure Associados, e 71% dos profissionais se dizem mais felizes na nova modalidade de trabalho, a partir da pesquisa da Owl Labs.

Mesmo diante do contexto, algumas questões ainda estão em tempo de amadurecimento pelo tempo e epistemologicamente no campo da psicologia, da sociologia (…), e ousamos indagar.

Qual o impacto no cotidiano das famílias ao trazer o ambiente do trabalho para casa? Os profissionais estavam ou ficaram preparados para conviver com conjugar demandas profissionais e pessoais?

O espaço físico externo do trabalho era um espaço externo a sua realidade pessoal? A saúde emocional foi considerada no decorrer dos meses pelas empresas? O profissional conseguiu estabelecer rotina de trabalho a partir de distintos recursos tecnológicos?

Quando realizamos as indagações acima é para refletirmos acerca do assédio moral.  Esse tema está disciplinado na Consolidação das Leis Trabalhistas (CLT).

O artigo 483, alíneas “b” e “e” da CLT estabelecem o assédio moral como condição para que o empregado considere rescindido o contrato, tendo direito a pleitear a devida indenização.

O assédio moral pode ser definido como atitude ou comportamento recorrente, expondo os colaboradores a situações humilhantes e constrangedoras, repetitivas e prolongadas vezes.

Geralmente, tal expressão se refere a atos ocorridos durante a jornada de trabalho e no exercício de suas funções.

Na prática, o ato de expor o empregado a situações humilhantes (como constrangimentos em frente a outros empregados), exigir metas inatingíveis, negar oportunidades de descanso quando outros empregados são dispensados, agir com rigor excessivo ou colocar “apelidos” constrangedores nas pessoas da equipe.

Seguem algumas práticas que podem caracterizar assédio moral no ambiente de trabalho; neste caso, abordado em home office:

  • Isolar o colaborador dos demais colegas, não dando oportunidades para o crescimento e não o convidando para participar das reuniões, deixando sua posição sempre como última alternativa;
  • É fundamental que todos os colaboradores tenham o mesmo nível de oportunidades perante o portfólio de trabalho;
  • Negar oportunidade de participação do colaborador; negar espaço para que ele ou ela possam expressar suas ideias ou pontos de vista a respeito de decisões que são tomadas em grupo;
  • Diminuir o papel ou a importância do colaborador perante o grupo de trabalho, com opiniões constrangedoras, tipo: você não faz nada certo, não podemos contar com você para nada, onde você põe a mão, dá problemas;
  • Constranger a pessoa a tal ponto que ela precise ser medicada ou precise de acompanhamento psicológico; quando o indivíduo perdeu o ânimo para o trabalho e precisa de acompanhamento médico. A situação é tão estressante que a pessoa já não aguenta mais.
  • Criar situações constrangedoras a ponto de forçar o colaborar a pedir demissão do trabalho. Não existe mais um ambiente harmônico para que a pessoa desempenhe suas tarefas, e então é forçada a pedir para sair.

Sugestões para um bom ambiente de trabalho:

  • O ambiente de trabalho deve ser criativo e harmônico, as pessoas que fazem parte da equipe devem estar motivadas e certas de que sua contribuição para o desenvolvimento do trabalho pode ser útil nesse tempo de medo e insegurança; a autoimagem do colaborador é muito importante;
  • Continue promovendo humanização, comemorando os nascimentos, os aniversários, as festas (…);
  • Estabeleça programas de acolhimentos entre os colaboradores;
  • Publicize e conheça os canais de Compliance;
  • Não seja cúmplice de assédio moral;
  • Certifique-se tanto dos programas de atendimento médico como psicológico, para que o ofendido não fique prejudicado em suas emoções.

O trabalho é um direito fundamental para a dignidade humana, e que deve ser garantido para todos.

As pessoas precisam trabalhar, as empresas precisam seguir com seu ritmo oferecendo oportunidades para que os colaboradores possam exercer suas profissões de maneira exitosa, motivadora e, principalmente, com dignidade e manutenção da vida.

Cabe aos gestores ou àqueles que se encontrarem em cargos de chefia, exercerem suas tarefas de maneira cordial, respeitosa e humana; o trabalho deve ter forte grau de humanidade para que se tenha estrutura emocional e para atravessar os momentos difíceis da pandemia.