A Medicina Tradicional Chinesa (MTC) é uma das técnicas integrantes das Práticas Integrativas Complementares do Sistema Único de Saude no Brasil.

A Medicina Alternativa e os movimentos conhecidos como “vitalistas” tem readquirido terreno no campo da Medicina e Cura, ainda que causem perplexidade nas comunidades científicas.

Quando os pacientes insistem em dividir o protagonismo em seus próprios tratamentos, e embora munidas de avanços científicos jamais esperados, as comunidades científicas ainda não sabem como se posicionar frente às racionalidades não advindas de contextos não-ocidentais, como é o caso da Medicina Chinesa, do Ayurveda e de vários outros tipos de tratamentos alternativos.

Sob uma perspectiva vitalista e integradora podemos definir Medicina Alternativa como um contexto bilateral centrado na experiência de vida do paciente, assim como na habilidade e sensibilidade do profissional em lidar com um desequilibrio nos campos que vão além do puramente material e fisiológico.

Com objetivo claro onde a ênfase é no “doente e não na doença”, as medicinas vitalistas e integrativas primam por colocar o paciente no centro do tratamento, ao invés de adicioná-lo a chaves compartimentadas de conjuntos de sintomas tratados com protocolos e fármacos.

Em um retorno que pode ser conferido em escala global, o reaparecimento sistemático das práticas da medicina alternativa acenam como um fenômeno social que emerge de embates cientificos em meio aos quais os indivíduos preferem ser vistos como únicos, tomando controle, junto ao terapeuta, dos passos em seu tratamento e cura.

Essa reassunção do lugar ativo do paciente em seu processo pessoal remonta a uma prática dos antigos gregos, e em particular ao protótipo do médico moderno, Hipócrates e seus percursores na Medicina Moderna Ocidental tal qual a conhecemos hoje.

Os hipocráticos lançavam mão de procedimentos utilizados até hoje, onde o paciente exercia papel fundamental, porém modificados e simplificados em demasia.

São várias as práticas que fazem parte das Medicinas conhecidas como Alternativas, e uma das que tem maior prestígio é a Acupuntura, que embora se utilize da nomenclatura que faz menção apenas à colocação de agulhas em locais especificos ao longo do corpo, também abrange aconselhamento nutricional, diálogos esclarecedores, além de uma série de recomendações que constituem um arcabouço de técnicas que perfazem a recuperação do equilibrio holístico pessoal, meta principal da MTC.

A História da MTC

Em seu berço oriental, mais precisamente na China, a MTC tem sua história recontada a partir da pré-história, em um momento anterior à escrita, com base em relatos orais históricamente recolhidos e posteriormente sistematizados no primeiro livro de MTC que se tem noticia conhecido como “O Clássico do Imperador Amarelo”.

Utilizada em toda a China, os praticantes da medicina chinesa tinham o dever de manter seus pacientes saudáveis, e reza a lenda que a cada paciente que se adoentava, era descontado um valor do salário do médico, simbolizando que este não havia exercido sua função a contento.

Desse modo, o médico da MTC primava por não deixar que as pessoas sob seus cuidados adoecessem, orientando-as e cuidando-as de modo a lhes manter saudáveis.

Assim, a Medicina Tradicional Chinesa ainda carrega a bandeira da ‘Prevenção’, lançando mão de uma gama de técnicas e filosofias que abrangem a nutrição, o exercício físico, o bem-estar da mente e do espírito, balanceando a vida dos indivíduos em todos os aspectos.

Os tratamentos que compõem a Medicina Tradicional Chinesa são a Fitoterapia, a Acupuntura, a Moxabustão, a Nutrição, a Massagem Oriental (Shiatsu), o Gua-sha e várias outras, praticadas conforme a região do país de enormes fronteiras e variados aspectos climáticos como a China Continental.

Interessante notar que a acupuntura praticada atualmente tem suas raízes em uma vertente filosófica espiritual conhecida como Taoísmo, sendo o que de mais importante poderíamos apontar nesta ampla e profunda seara da filosofia oriental é o conceito dual do Yin e Yang.

Segundo essa filosofia, cujo maior expoente é a figura mística e lendária de Lao Tsé, no início só havia o Uno, o Indivizível.

Colocado em movimento, o Uno fluiu para baixo e para cima, dando espaço aos princípios criativos do positivo e negativo, permitindo que o que conhecemos como “vida” – que é puro movimento, pudesse acontecer.

Assim, os pólos se formaram, e os opostos se constituíram: o céu e a terra, o claro e o escuro, a noite e o dia e todos os opostos duais, sem os quais não seria possível a percepção de um sem o outro, ideias retomadas nos diálogos socráticos na Teoria dos Contrários.

A Filosofia Aplicada na MTC

Da dualidade do Yin e Yang surgiram os Cinco Elementos, maneira pela qual a abstração do mito criativo flui para a vida prática dos seres humanos.

Os cinco elementos abrangem cores, formas, sabores, texturas, temperaturas e tudo o mais que existe dentro e fora da vida do ser humano. O perfeito equilíbrio entre as cinco essências é o que coloca o organismo em perfeita saúde e vigor.

No entanto, o fator movimento está sempre presente, fazendo com que sejam necessários ajustes finos feitos em uma base regular para que a manutenção do equilibrio seja contínua e efetiva.

Uma ilustração pertinente seria a de uma esfera equilibrada em um jorro de água, sempre em movimento, em uma interação profunda entre interno e externo, movimento e inércia.

Atualmente, na China, a MTC convive com a Medicina Ocidental e existem Hospitais especializados em cada uma das especialidades.

No Brasil, a acupuntura foi trazida pelos japoneses para as colonias agrícolas no começo do século XX, mas mantido restrito a estas.

Era uma acupuntura derivada da MTC. Na década de 1950, o luxemburguês Frederico Spaeth (1912-1990) seguidor da “escola francesa de acupuntura” começou no Brasil um trabalho mestre-discípulo para começar a formar acupunturistas e profissionais da MTC.

No entanto, só em 1970 a acupuntura começou a ganhar alguma popularidade, embora desprezada pela Medicina Ocidental.
Atualmente, a MTC pode ser praticada por profissionais devidamente qualificados e treinados por Instituições qualificadas.

MTC na Prática

Seguindo uma premissa natural, e que permeia toda a Filosofia Chinesa em suas vertentes, inclusive a da saúde, a “Observação” é a matéria fundamental para o diagnóstico e tratamento na MTC.

É necessário muito autocontrole e certo silêncio interior para ser capaz de “ver e ouvir” um paciente, seja através de seus pulsos, do tom da sua voz, do discurso que profere, assim como de todos os fragmentos que compõem um indivíduo a ser observado e tratado.

Os praticantes da MTC utilizam-se da leitura dos pulsos do paciente, através da ausculta de 27 tipos de pulsação. São capazes de identificar o fluxo do que não vai bem no organismo do paciente, sendo que várias questões de anamnese também são somadas ao diagnóstico.

O profissional da medicina tradicional chinesa também observa a coloração e aspectos da língua, dos olhos, da pele, das unhas e cabelos, faz palpações de pontos precisos ao longo do corpo do paciente, traçando um mapa bastante informativo e detalhado do estado atual daquele indivíduo.

Na MTC, o paciente é observado por várias perspectivas diferentes e questionado sobre hábitos alimentares, emocionais, fisiológicos, além das queixas pontuais que o tenham trazido ao consultório.

Nenhuma informação é irrelevante, e pacientes ocidentais tendem a se sentir até curiosos sobre a razão pela qual o profissional da MTC lhes pergunta sobre a cor das fezes e da urina, se acordam frequentemente à noite, o que costumam sonhar, entre outros questionamentos um pouco incomuns.

Todas essas informações são parte do mosaico que dará entendimento sobre a situação geral do organismo e psique daquele paciente naquele momento.

Nas sessões seguintes, os mesmos passos podem ser retomados e o questionamento refeito porque na MTC, um ser humano é visto como matéria em constante mutação, portanto, impossível de apresentar as mesmas características em momentos diferentes.

MTC Hoje! Modernidade e Necessidade

Atualmente, as pessoas queixam-se de serem tratadas como números. Simplesmente, “mais um” e essa despersonalização faz com que os indivíduos sintam-se desencontrados e desencaixados de si mesmos.

No livro O Clássico do Imperador Amarelo, um dos primeiros conselhos aos novos praticantes é o de tratarem a seus pacientes como se estivessem frente ao Imperador em pessoa, numa alusão clara a personificar e individualizar cada tratamento, atendendo ao paciente com toda deferência possivel.

Esse estilo antigo, mas muito bem vindo hoje em dia, retira as pessoas do lugar comum de apenas “mais um” no consultório, para um posicionamento onde reside a inteira individualização e atenção plena em si, tanto da perspectiva do paciente quanto do terapeuta, lançando um facho de luz de absoluto protagonismo do indivíduo quanto à trajetória de seu diagnóstico e terapêutica.

Ser tratado por um verdadeiro praticante da MTC faz com que o paciente sinta-se especial, único e consciente de seu próprio corpo, como cada pessoa já naturalmente é.

Ecos de uma Medicina tão antiga encontram ressonância no agitado e barulhento mundo moderno, que em sua essência, permanece em uma constante busca por equilíbrio, como a esfera de cristal equilibrada eternamente no jorro ininterrupto da água.