Depois de aprofundar-me sobre o assunto durante a pandemia, de vivenciar em pacientes os desafios enfrentados decidi mudar meu foco de atendimento e passei a me dedicar aos transgêneros, cuidando de sua saúde mental e física.

A condição de ser “trans” é muito mais complexa, tanto na teoria quanto na prática. Além de outros impactos ligados à questão da transgeneridade existem problemas e estigmas mais evidentes como a não aceitação na sociedade, dificuldades na hora de conseguir um emprego, de conquistar a redesignação sexual, mudança para o nome social, além de tanta discriminação e preconceitos, os quais não faltam desde o início do percurso de transição até a fase de maturação da transição em si.

Existem ainda outros obstáculos mais graves que influenciam o fator psicológico. Tudo é delicado e complexo nesta área do humano.

O processo de percepção da própria transgeneridade se dá, através de alguns indicadores no próprio desenvolvimento humano, tais como a incongruência de gênero, que provoca intensa inquietude e incômodo ao indivíduo trans, por entender que o seu corpo não reflete o que este realmente é.

Esta falta de identificação acaba ocasionando outros problemas, como ansiedade, angústia, depressão, e até mesmo questões mais graves, como ideações e tentativas de suicídio, pois, de forma perturbadora, pode transformar tanto os sentimentos da pessoa, quanto ocasionar problemas familiares e profissionais.

Existe muita confusão com relação às diferenças de orientação sexual e identidade de gênero.

A orientação sexual faz com que uma pessoa busque relacionamentos afetivo-sexuais com pessoas do mesmo sexo (homo), sexo oposto (hétero) e ambos (bi), caso ela não seja um indivíduo assexual (não tem interesse na atividade sexual) ou pan (atração por pessoas, independente de seu sexo ou identidade de gênero).

Já na identidade de gênero, a questão é o sentir-se, perceber-se e identificar-se como mulher, homem, ou ter uma identificação fluida entre os dois.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) mudou esse entendimento em seu guia, que serve de referência para estatísticas e diagnósticos médicos: ser transgênero – em geral, ter uma identidade de gênero que não corresponde ao seu sexo atribuído ao nascer – não é doença.

Transgêneros são pessoas que não se identificam com seu sexo biológico designado ao nascer.

Pode ser um homem que se enxerga como mulher, uma mulher que se entende como homem ou ainda alguém que acredita não se encaixar perfeitamente em nenhuma destas possibilidades.

A nova definição da OMS acaba na prática com a noção que se tinha a respeito de pessoas transgênero.

É preciso ter sempre respeito e informação.