Os profissionais mais importantes na assistência à saúde são os enfermeiros e os técnicos de enfermagem. A enfermagem brasileira está vivendo um dilema jamais visto nesta era moderna; desde Florence Nightingale não houve tantos descasos com a enfermagem como agora, apesar das dificuldades vivenciadas no dia a dia, nos quais muitos profissionais já conhecem a grande incidência de doentes – que no olhar holístico já tinha graves problemas com múltiplos diagnósticos – e agora é assolada com a disseminação da COVID-19 em escala intercontinental.

O que está aterrorizando os profissionais da enfermagem brasileira é a forma como muitos governantes ainda persistem em tratar seus trabalhadores nos seus ambientes de trabalho e no contexto geral; o desdém com relação à doença, a necessidade de insumos como os equipamentos de proteção individuais (EPIs) para realizar a assistência aos infectados de forma prudente, segura sem contaminar as equipes envolvidas no tratamento da SARS-CoV-2 –  pois como podemos observar, a enfermagem brasileira lidera o ranking de contaminação e óbitos de profissionais no mundo.

Vivenciando o dia a dia da enfermagem pôde-se observar a tarefa árdua de cada profissional diante da pandemia: superlotação de leitos de terapias intensivas por único diagnóstico, (bem sabemos que os leitos destas terapias já eram superlotados antes mesmo desta, com diagnósticos variados); realização da assistência de qualidade sem equipamentos adequados e/ou em quantidade insuficiente; guerra política com discordâncias de tratamentos aos infectados; estruturas físicas hospitalares sucateadas; terceirização de unidades para tratamento da SARS-CoV-2 com riscos e casos confirmados de superfaturamento de materiais em geral; persistência da baixa remuneração e reconhecimento profissional da rede pública e principalmente na rede privada, desmotivando uma grande parte destes; avaliações com equipes multiprofissionais na seleção de pacientes com prioridade de tratamento pela falta de profissionais e insumos (triagem avançada); descasos de autoridades em realizar testagem aos profissionais envolvidos; baixa capacitação; confinamento e distanciamento da família em hotéis, pousadas, ou afins para evitar a disseminação do vírus em entes/parentes; distúrbios psiquiátricos engatilhados pela convivência excessiva da morte, medo da doença e da contaminação; distanciamento familiar/solidão (muitas vezes lotados em outros Estados brasileiros), carga excessiva de trabalho, suicídios, etc; ou seja, vivenciar tudo isso e mais um tanto de outras coisas coloca o profissional de enfermagem como o herói dos heróis nacionais.

Ao trazer o assunto para discussão, percebe-se a necessidade de uma atuação maior de entidades reguladoras da enfermagem, do poder público, da sociedade, dos próprios profissionais na valorização do profissional de enfermagem como ferramenta articuladora do processo, sendo necessário dar maior importância ao tema, através de uma reformulação nos currículos dos Cursos de Graduação em Enfermagem e Cursos Técnicos de Enfermagem, inserindo estratégias contínuas de ensino que valorizem e mostrem a capacitação/atuação real destes profissionais não só no momento atual como em qualquer situação que requeira estes heróis de excelência na assistência; porém, acredito que esta pandemia irá realizar muitas transformações no mundo da enfermagem, mas para que isso aconteça, dependerá mais da própria categoria do que de outros. Tenho orgulho e prazer de ser enfermeiro.