Fomos todos pegos de surpresa diante desse vírus Covid-19 que se tornou evento mundial de busca pela sobrevivência. Falar de saúde mental é abordar a busca incessante do sujeito por seu equilíbrio nas dimensões humanas: biológicas, históricas, sociais, emocionais, relacionais, espirituais… Imaginem então equilibrar tudo isso em novas condições impostas por uma condição externa invisível, avassaladora e que não abre espaço para a escolha plena particular de cada sujeito.

Como sujeitos de histórias de vidas complexas, não estávamos preparados para nos depararmos com uma nova realidade e abrirmos mãos de nossas rotinas e do direito de ir e vir por uma questão, agora, de saúde pública. Como muitas teorias do desenvolvimento infantil concordam, nascemos com essência egoísta de pensarmos em nossas necessidades e desejos, daí aprendemos a viver em sociedade e exercitamos olhar a demanda do outro, mas é um exercício contínuo para nossa formação como sujeitos sociais.

Com a pandemia decorrente do Coronavírus, a única forma viável de dificultar a proliferação do vírus, visto a ausência de vacina ou tratamento eficaz, é o apelo ao isolamento social. #Fique em casa: Tarefa árdua, visto que a sociedade brasileira tem sua cultura pautada em festas, encontros, abraços e formas afetuosas de manter seus relacionamentos. O apelo das mídias sociais do “fique em casa” tem ecoado de forma desproporcional nas diversas camadas sociais, a depender das condições sociais e econômicas, como também das profissões.

Alguns não seguem essa orientação, não por falta de consciência ou medo de contaminação, mas por manter uma vinculação em áreas essenciais que os exigem a se expor diariamente ao risco de contaminação, como profissionais da saúde, entregadores, balconistas de farmácia, catadores de lixo, entre outros que estão à frente, mesmo com esta pandemia.  Enquanto outros se sentem fadigados e/ou ociosos por serem obrigados a ficarem em casa, seja por terem perdido seus empregos, por estarem suspensos seus contratos de trabalho ou reduzido suas jornadas de trabalho de forma involuntária.

E outra camada da população se mantém em outra perspectiva extremamente sobrecarregada emocional e fisicamente, acumulando e se dividindo entre atividades profissionais mantidas em home office, com rotinas de atividades de manutenção do lar, comida, limpeza, acompanhamento de atividades escolares com aulas em forma remota e, quando sobra tempo, lazer e cuidado consigo mesmo.

A pandemia trouxe à tona algumas questões sociais que desvendaram, e tornou explícitas as discrepâncias sociais; enquanto alguns se sentem entediados com uma rotina repetitiva, com poucos atrativos por terem assistido tudo que tinham direito em sua televisão LED, outros passam fome e dependem de ajudas de familiares, auxílios emergenciais e dividem espaço restrito de 2 quartos com uma família de 10 membros. Como pedir um comportamento equilibrado, “consciente” e saudável de forma igual para contextos sociais tão diversos?

Um fator de risco para a saúde mental, independente da classe social, que afeta, de certa maneira particular, mas a todos, é a necessidade de convívio intenso por 24 horas por dia com familiares, esposo, filhos ou parentes que estavam com você em casa em meados do dia 18 de março. Congelou tudo. Lock Down: ninguém entra e ninguém sai. Ficamos condicionados a respeitar, integrar, conviver e compartilhar equipamentos, espaços, alimentos e, ainda por cima conseguir o grande desafio de manter um clima agradável e saudável de ‘sobrevivência´ entre todos.

Os profissionais da saúde mental costumam relacionar esse momento atual como uma ‘Prova de Fogo’ das nossas condições subjetivas previamente aprendidas, de lidar com a vida. Um teste de nossas habilidades de se reinventar, de resiliência, de superação e de ressignificar experiências. Como resultado, como era de se esperar, houve um aumento significativo de casos de suicídio, separações, violência doméstica, crises de pânico, entre outros que se adicionam aos números diários de novos casos e de mortes por Covid-19.

O momento sinaliza muitas incertezas e muita falta de controle de variáveis, onde o sujeito perde, em certa medida, seu poder de controlar e de decidir sobre sua vida particular; ele precisa, mais do que nunca, olhar para o coletivo. Esse movimento, como já mencionamos, não é fácil nem para crianças e nem para adultos, maduros ou com formação acadêmica. Essa falta de controle leva ao medo, insegurança, ansiedade, nervosismo, entre outros efeitos de respostas emocionais que ocorrem quando não sabemos lidar com o novo e não estamos abertos a aprender frente a essa realidade conhecida agora como o “novo normal”.

Os estudiosos do desenvolvimento humano sempre apontaram acerca da relevância da criação e da manutenção de uma rotina para nossa organização e, portanto, para nossa saúde mental.  Mas, podemos inovar nessa rotina? Será que diante de tantas novas demandas, precisamos fazer tantas coisas novas, desafiantes, uma lista de cursos e atividades para nos sentirmos produtivos nessa pandemia? Essa discussão acerca da produtividade versus ócio é filosófica e merece um aprofundamento epistemológico, afinal por que mesmo queremos sempre nos sentir úteis? Por que não parar ou recuar, ou diminuir o ritmo?

O cuidado com a saúde mental é uma escolha diária, individual, de buscar equilibrar tantas dimensões, não somente particulares, mas sociais, econômicas e até mesmo políticas no atual momento do Brasil. Sugiro escolher a vida, mas não de qualquer jeito; aberto a aprender uma nova forma de vivê-la.