Os números já mostram parte do estrago que a pandemia da Covid-19 e o isolamento social estão causando na vida das pessoas em todo o mundo. Diversos estudos mostram um aumento bastante significativo nos sintomas de depressão e ansiedade em vários países. Um estudo realizado na Etiópia em abril de 2020, por exemplo, relatou um aumento de três vezes na prevalência de sintomas de depressão. Durante a pandemia, na China, os profissionais de Saúde relataram altas taxas de depressão (50%), ansiedade (45%) e insônia (34%) e, no Canadá, 47% dos profissionais de saúde relataram a necessidade de suporte psicológico. Crianças e adolescentes também estão em risco e pais e mães na Itália e na Espanha relataram que seus filhos tiveram dificuldades para se concentrar além de irritabilidade, inquietação e nervosismo. Estudos realizados com jovens do Reino Unido relatam que 32% concordam que a pandemia piorou sua saúde mental.

Quando se fala sobre saúde mental, é importante que ela abrange muito mais que simplesmente a ausência de doenças mentais. Pessoas mentalmente saudáveis são as que entendem que a vida é imperfeita, que há limites e que “tudo não pode ser para todos”. Elas vivenciam emoções como alegria, amor, satisfação, tristeza, raiva, frustração de maneira equilibrada e são capazes de enfrentar desafios e mudanças com menos aflição, perturbação e trauma.

Sendo assim, podemos afirmar que a saúde mental está relacionada à forma como as pessoas agem frente às exigências que a vida coloca a elas. “Quando se fala sobre saúde mental, se fala sobre estar bem consigo mesmo e com os outros, aceitando as exigências da vida e lidando, de maneira positiva, com emoções boas e ruins, reconhecendo limites e pedindo ajuda quando necessário”, exemplifica Suzie Clavery, uma das co-fundadoras da Employer Branding Brasil, iniciativa de gestão estratégica de marcas empregadoras.

Com a pandemia, é natural que as empresas passem a ficar ainda mais atentas ao tema, uma vez que o medo dos seus colaboradores diante de uma doença até então desconhecida e a modificação do sistema de trabalho aliados ao isolamento social e à privação da liberdade geram um estresse emocional muito grande. Segundo Suzie, os problemas que mais afetam os colaboradores de uma empresa dentro do cenário no qual estamos vivendo são:

  • Preocupação financeira: o trabalhador é afetado pela preocupação quanto à garantia do seu emprego e à possível perda do seu potencial financeiro
  • Cuidado com a saúde: o colaborador tende a se preocupar mais com sua saúde e com os métodos de segurança dos quais se valem para evitar a infecção
  • ansiedade por ausência de convívio social: a retirada do indivíduo do convívio social tende a isolá-lo e criar cenários em que a ansiedade se torna uma grande vilã

Considerando que o maior ativo de uma empresa são seus colaboradores, é preciso lembrar, então, que cuidar da saúde mental dos funcionários ajuda na reputação da marca empregadora. “São as pessoas que fazem o negócio girar e, por mais que os fatores estressantes que comprometem a saúde mental dos colaboradores não estejam sob controle da empresa no caso da pandemia, a forma como ela reage a estes fatores podem, sim, contribuir para a saúde mental destas pessoas. Consequentemente, isso passa a sensação de orgulho (ou não) de pertencer à empresa, e isso é Employer Branding”, explica Suzie. “Se a empresa proporciona uma experiência positiva mesmo dentro da pandemia, contribuindo para que seu colaborador tenha sua saúde mental mais equilibrada, a experiência positiva provocada naquele momento vai ter uma influência direta também positiva na reputação da marca empregadora. Colaboradores de empresas que não deram suporte neste momento levantam a dúvida de se estar numa boa empresa para se trabalhar. Uma maneira simples e ver isso é: quando alguém perguntar como é trabalhar naquela empresa durante a pandemia, o que o colaborador vai responder é bom ou ruim? Esta é uma ótima dica para saber se a marca está indo na direção certa”, finaliza.

Não se trata de responsabilidade legal da empresa cuidar da saúde mental dos colaboradores, mas sim de responsabilidade moral – quando a marca cuida das pessoas que trabalham com ela estas pessoas sentem isso, se sentem protegidas e executam melhor suas tarefas. A experiência positiva ajuda na reputação da marca empregadora que as pessoas criam no mercado – segundo Suzie, é preciso ter empatia pelos colaboradores como seres humanos neste momento de home office, por exemplo, entendendo que tudo o que está ocorrendo afeta na saúde mental. “Cuidar da saúde mental das pessoas é uma forma de dar resultados positivos para os negócios. A falta de informações claras sobre a empresa e a incerteza da demissão geram ansiedade, por isso é fundamental ter os caminhos abertos, com muitos diálogos com a liderança e muita transparência”, afirma.

Para encerrar, Suzie dá algumas dicas de como algumas ações simples podem ajudar as empresas neste momento:

Oferecer recursos tecnológicos

É possível utilizar a tecnologia para oferecer programas e sistemas destinados à promoção da saúde psicológica por meio de atendimento psicológico, por exemplo. Outros bons exemplos de como a tecnologia pode ser usada para promover bem-estar são as plataformas de meditação, educação virtual e gerenciamento de estresse.

Ressaltar a importância da saúde intelectual

Aqui a dica é falar sobre o assunto de maneira aberta com os colaboradores, acabando com os estigmas que ainda existe quando se trata sobre saúde mental. Promover a autoestima também pode ajudar, além de orientar os colaboradores como podem pedir ajuda no caso de sintomas de males como depressão, ansiedade ou pânico.

Usar ferramentas de comunicação

A comunicação é essencial não apenas para que o trabalho seja prestado com qualidade e de forma produtiva, mas para construir e manter um ambiente equilibrado e saudável. Quando o assunto é saúde mental, ela se torna essencial para o melhor desenvolvimento das atividades.

Mostrar empatia e liderança

É primordial que haja empatia no dia a dia de trabalho. Os líderes precisam deixar claro que a saúde dos colaboradores importa à empresa. No home office, vale apostar na realização de vídeo chamadas com assuntos nem sempre relacionados ao trabalho. É preciso, também, saber ouvir como o colaborador se sente, como está sua situação e da sua família durante a pandemia e como está sua adaptação aos novos tempos.