Desde o anúncio das medidas restritivas para tentar combater o avanço da COVID-19, a pergunta que não quer calar gira em torno da reabertura do comércio e da indústria. E o que parece ser, aos olhos de quem está em isolamento social, uma dúvida até bastante legítima, passa a ser visto com desconfiança, se você se propuser a dar uma volta rápida pelo seu bairro num dia de semana qualquer, especialmente se você mora na periferia de uma grande cidade.

Recentemente eu mediei uma live com executivos de uma grande montadora, que retomou recentemente parte de suas operações de produção. Desde antes da conversa, já me parecia algo lógico que uma empresa multinacional não iria se expor e simplesmente reabrir a sua linha de produção sem protocolos bastante rígidos de segurança, mas o que veio a seguir dá a dimensão de como é complicado fazer a coisa certa.

É muito fácil fazer de conta que nada aconteceu nas últimas semanas e que a vida hoje é exatamente igual ao que era no começo de março. Alguém poderia dizer que basta seguir os protocolos normais de segurança, espalhar potes de álcool gel, máscaras e luvas por todas as áreas das fábricas, adesivar marcações para garantir o distanciamento em filas, estações de trabalho, ônibus fretados, refeitórios e a empresa está pronta para retomar as suas atividades, certo?

Em parte, sim, mas eu aprendi que as medidas para a reabertura não podem se restringir a apenas isso. O que realmente me chamou a atenção nessa conversa toda foram os pontos que eu quero compartilhar aqui com vocês, e que fogem do lugar comum dos cuidados com a higiene e etiqueta respiratória, ou do distanciamento adequado no ambiente de trabalho:

  1. Cargos mais altos voltam ao trabalho primeiro: esta, talvez, tenha sido a minha maior surpresa. A liderança da empresa chamou para si a responsabilidade de avaliar as condições de segurança para a retomada das atividades e foi a primeira a voltar para as fábricas e escritórios. E por um motivo bem simples: não só garantir a integridade dos demais colaboradores, mas principalmente testar e assegurar que as medidas de prevenção propostas funcionam, e bem.
  2. Nem todo mundo volta a trabalhar junto: foi feito um grande levantamento demográfico com todos os colaboradores, e uma série de elementos foram considerados para determinar quem volta ao trabalho e quando. Fatores como idade, pré-existência de doenças, ter com quem deixar os filhos e muitos outros foram avaliados e apresentados formalmente aos colaboradores, que tiveram a opção de aceitar ou não a escala proposta pela empresa. Nada foi imposto, tudo foi feito em consenso, com a participação inclusive dos sindicatos.
  3. Não se trata só de gente: toda a coordenação da reabertura desta empresa depende de uma cadeia de fornecedores, que envolve um pouco mais de cem mil pessoas, que não trabalham diretamente para esta empresa, mas que precisariam se comprometer a seguir normas de proteção e prevenção tão rígidas quanto para viabilizar essa retomada de atividades. Ou seja, a empresa teve o cuidado de garantir que toda a sua cadeia de fornecedores e revendedores cumpra com as mesmas medidas que está implementando para os seus colaboradores.

É claro que as iniciativas tomadas por esta empresa não se resumem aos poucos pontos acima, mas eles dão a dimensão de quão complexo e intrincado esse processo de retomada pode ser. E nos ajudam a entender por que muita empresa grande está anunciando aos quatro ventos que irá estender o trabalho em casa até o fim do ano. Será que é pelo simples motivo de que fazer uma reabertura bem feita exige muita coordenação e preparo, além de custar bastante dinheiro?

Outras duas perguntas, que acabaram surgindo ao final da conversa e que me impactaram, foram: “e se alguém ainda assim não se sentir 100% seguro e não quiser voltar ao trabalho, o que acontece?” E “que cuidados tomar para garantir uma reabertura segura em uma empresa menor, sem os mesmos recursos, infraestrutura ou orçamento?”.

A primeira parte é ainda algo incerto para todo mundo. Dependeria de uma série de fatores, principalmente do grau de maturidade na relação empresa/ funcionário, mas ainda é cedo para cravar o que será considerada a melhor prática, principalmente por não sabermos o que será considerado aceitável no “novo normal” pós COVID-19. Minha aposta pessoal seria algo parecido com uma flexibilização caso a caso, mas isso pura especulação minha.

Já para todas as demais empresas, que não têm as mesmas condições financeiras de uma grande montadora multinacional, minha recomendação seria aplicar os pilares fundamentais do convívio humano, que também foram consideradas pela montadora em sua estratégia de reabertura: respeito e empatia pelo próximo, combinada com um plano de comunicação extenso e transparente.

Vale sempre lembrar que expor funcionários a qualquer tipo de risco não é só ilegal, mas pode afugentar clientes, derrubar ainda mais o faturamento e, eventualmente, acabar de vez com o negócio. E também é certo que nem sempre é possível envolver os funcionários nas decisões de uma empresa.

Por outro lado, incentivar os colaboradores a expressar suas preocupações em momentos como o que estamos vivendo, poderá fazer uma boa diferença no seu comprometimento, além de impactar diretamente na satisfação e fidelização de seus clientes. E o planejamento bem sucedido da reabertura de qualquer negócio passa obrigatoriamente por aí.