A pesquisa realizada pela Cushman & Wakefield, divulgada no final de maio pela Exame, comprova que o home office veio pra ficar. Segundo o estudo, 74% das empresas pretendem institui-lo definitivamente após a pandemia do novo Coronavírus. Mas o processo demanda uma série de cuidados. Uma coisa é você ter que colocar todo mundo para trabalhar em casa, por uma situação emergencial, que é o que aconteceu no início da quarentena. As empresas tiveram que se adaptar e até improvisar para conseguir manter suas operações.

No entanto, quando falamos em um modelo fixo, é preciso uma série de cuidados para proteger os colaboradores de danos físicos, emocionais e psicológicos, e proteger a empresa, até do ponto de vista legal. Com mais de 67 mil m² de projetos assinados, nós, do Studio BR Arquitetura, já vínhamos fazendo parte da transição de modelos de grandes empresas do País. Por um lado, com projetos que criam escritórios mais flexíveis – tendência impulsionada pelas startups de tecnologia -, otimizando a área útil com uma metodologia exclusiva e registrada de 17 tipologias diferentes de espaços e, por outro, dando consultoria para a formatação de um modelo de home office que garanta a produtividade, o bem estar e a segurança dos colaboradores, bem como, a unidade da marca, mesmo à distância.

O restabelecimento do uso dos espaços demanda que as empresas já tenham deliberado e colocado em prática as políticas de home office e trabalho remoto que a pandemia provou serem possíveis, mesmo para as companhias que antes da pandemia eram mais conservadoras e céticas.

Como parte indispensável dessa política, está um manual multidisciplinar que contemple as premissas e condições básicas para um home office emergencial e também para um modelo futuro mais estruturado. Como temas prioritários, do ponto de vista da concepção desses espaços em casa, sugiro um programa de conscientização para que os próprios colaboradores possam aderir a rotinas de cuidados com a saúde e o bem-estar. Podem-se incluir lembretes para as pausas necessárias para hidratação e descompressão, agendamento e lembretes de pausas para exercícios laborais de alongamento e ergonomia. Há também alternativas de desativação do sistema digital da empresa após um tempo máximo de trabalho permitido por turno, entre outros mecanismos integrados à plataforma virtual de gestão.

Os cuidados com a ergonomia também são fundamentais. O tampo da mesa deve estar a 72 cm do chão, a cadeira precisa ter altura de assento regulável, com braços também ajustáveis, de maneira que permita que os braços da pessoa ao digitar fiquem em um ângulo de 90 graus, para que não seja necessário erguer os ombros. Apesar de não ser um item obrigatório, também é muito importante que a cadeira tenha uma proteção lombar, já que problemas na coluna afetam a circulação sanguínea podendo resultar em diversos problemas de saúde, como crises de enxaqueca e irritabilidade.

Outro item básico a ser contemplado é um suporte para o laptop, para que a tela fique na mesma altura dos olhos, de modo que não seja necessário curvar o pescoço. Da mesma forma, no caso de uso de notebooks, teclado e mouse auxiliares serão necessários para manter os braços na posição correta.

Destaco também importância da iluminação. A luz natural é sempre bem-vinda e precisamos garantir o mínimo de lumens também à noite (potência ideal de 500 lux). A luz branca quente, preferencialmente em led, proporciona mais conforto. A depender da altura em que a lâmpada está, sua potência e intensidade podem variar. Hoje já é possível realizar testes para chegar aos 500 lux através de aplicativos de celular.

 

Home office x trabalho remoto/ teletrabalho

O home office, como o próprio nome indica, é uma modalidade de atuação dos colaboradores em sua residência, através do uso de tecnologias que o conectam à rede de seus empregadores. O ideal da modalidade é que haja diretrizes e normas que visem proteger a saúde e os direitos do colaborador, assim como a segurança da informação das empresas. Ele é considerado um tipo de teletrabalho regido pela CLT e, portanto, é preciso observar todas as normas que regem a modalidade, pois se entende que o colaborador está sob responsabilidade da companhia.

Por isso, é necessário um processo de implantação, que envolva pesquisa de elegibilidade (avaliação de quais colaboradores e funções efetivamente podem ser desempenhadas fora do espaço de trabalho, sem prejuízo a ambas as partes) e políticas de cuidado laboral, que vão desde garantias de ergonomia e qualidade ambiental a cuidados com pausas, intervalos e jornadas dos colaboradores.

Já o trabalho remoto representa um trabalho que pode ser desempenhado de qualquer local, que não seja a mesa de trabalho comum do colaborador, seja no interior do escritório ou em ambientes externos. Entendemos que todas as empresas que não possuíam políticas consolidadas de home office vigentes no momento de distanciamento social aplicaram o que chamamos de trabalho remoto emergencial, ou seja, emergencialmente as pessoas foram orientadas a trabalharem fora do espaço corporativo, com recursos, muitas vezes, temporários, uma vez que não houve tempo hábil de planejamento e implantação de um programa de home office consolidado.

Para ela, mais que a abrangência que agora o home office terá, o trabalho remoto é a tendência mais promissora. Se entendermos que em breve empresas repensarão seus espaços para um menor adensamento e melhor distribuição de suas áreas, perceberemos que espaços mais flexíveis, confortáveis e diferentes de mesas de trabalho padrão são uma tendência no modelo de escritório do futuro. Imagine trabalhar em uma sala de estar, com ergonomia através de mesas de apoio reguláveis, com vista agradável para o exterior e um ambiente descontraído, tudo isso dentro do próprio escritório da empresa. Ou então trabalhar em um café, com a mesma estrutura, também dentro do ambiente corporativo, ou seja, estar remotamente deslocando-se em espaços amplos, flexíveis e ergonômicos, sem precisar fixar lugar em uma única mesa.

O cenário desenhado é para um segundo momento, após a imunização contra a Covid-19 estar no mercado, pois compartilhar muitos espaços enquanto ainda não há imunização não é aplicável. Mas a principal mudança para o futuro será comportamental, uma vez que não estamos livres de pandemias futuras. A preocupação com o compartilhamento de mesas e espaços neste cenário colaborativo deve reforçar as políticas de higiene pessoal e institucional.