Está cada vez mais claro que os desafios da quarentena estão longe de serem resolvidos e não há soluções simples. Enquanto toda a atenção é voltada diretamente para a covid19, nos esquecemos das terríveis consequências que uma quarentena de médio e longo prazo podem acarretar.

A saúde mental é a primeira a ser afetada, de maneira silenciosa; problemas como depressão, transtorno de ansiedade, síndrome do pânico já são uma realidade e tem afetado famílias inteiras, independente de cor, raça ou posição social. E muito pouco tem se falado sobre o assunto.

Depressão

A Depressão, também chamada como ‘mal do século’, é um dos grandes desafios da saúde aqui no Brasil. Segundo a OMS, 6% da população já tem problemas de depressão, afetando um total de 11,5 milhões de brasileiros. Com a quarentena, esse número tende a  dobrar.

A UERJ (Universidade do Estado do Rio de Janeiro) apresentou um levantamento com 1.460 pessoas em 23 estados, mostrando que houve um aumento de 90% de casos de depressão em pouco menos de um mês durante a quarentena contra o coronavírus.

Os dados da pesquisa foram coletados em dois períodos; entre 20 e 25 de março e 15 e 20 de abril.

Como profissional na área da saúde, formada em neuropsiquiatria e especialista em saúde mental e neurodesenvolvimento, posso afirmar que o confinamento, a incerteza, o medo alimentado pelo terrorismo midiático, a perda do emprego, o afastamento do convívio social, são alguns elementos que podem SIM, levar uma pessoa ao quadro de depressão; isso sem contar aqueles  que já têm alguma predisposição ao problema. Estamos todos exaustos e esgotados e o prejuízo pode ser maior ainda para os mais vulneráveis.

Sintomas

A tristeza, a perda de interesse ou prazer em atividades antes apreciadas, alterações no apetite com perda ou ganho de peso, perda de sono ou excesso dele, perda de energia, fadiga, cansaço, baixa autoestima, dificuldade de concentração e de tomada de decisões, alinhados aos pensamentos de morte ou suicídio, estão entre os sintomas.

Quero alertar que o humor depressivo durante a maior parte do dia é o principal sintoma; se uma pessoa apresentar pelo menos 5 sintomas característicos da depressão por mais de 2 semanas, precisa buscar ajuda psiquiátrica urgente, pois depressão é uma doença e precisa ser tratada. Quanto antes a pessoa iniciar o tratamento, melhor.

Ansiedade

A Ansiedade é um nome dado para vários distúrbios que causam medo, nervosismo, apreensão e preocupação. É uma reação que qualquer pessoa pode experimentar diante de certas situações do cotidiano, desde falar em público e expectativas gerais, como a espera de exames médicos, entrevistas de emprego e situações tensas nos relacionamentos.

Algumas pessoas vivenciam essa reação de forma mais intensa e com mais frequência, sendo diagnosticada como um problema patológico que compromete a saúde emocional.

Ataques de Pânico se apresentam com sintomas físicos semelhantes aos de um infarto; dores no peito, formigamento nas mãos, pés ou rosto, taquicardia, náusea, sudorese, tontura, respiração acelerada e muito medo de morrer. O mal estar súbito é uma resposta à ansiedade. 

As principais hipóteses desses ataques observados indicam que podem estar ligados a vários fatores; desde predisposição genética, efeito colateral de medicamentos, uso de drogas, situações estressantes (perda de emprego, perda familiar), neuroticismo (ansiedade, depressão, baixa autoestima, pensamentos negativos exagerados…) além de acúmulo de tensões ou inibições.

Uma das dificuldades de se combater esses problemas de saúde é porque eles são e se manifestam, na maioria das vezes, de maneira silenciosa. O indivíduo se acostuma a ser ansioso  e só se dá conta do quadro, quando este  já está agravado.

Esses quadros de saúde mental também podem ser vistos em grupos específicos de pessoas como os idosos, adolescentes e em crianças, sendo estas, pacientes cada vez mais frequentes nos consultórios psiquiátricos.

Outra questão que merece nossa atenção é que, embora nos primeiros dias da quarentena, tudo possa ter sido muito divertido, como ter a família reunida para as refeições ou para assistirem as séries da Netflix, o confinamento a médio e longo prazo, pode causar desgaste familiar.

Com a convivência em excesso, aliado a quebra de rotina, o agravamento dos problemas financeiros, o estresse, a falta de perspectiva e o crescimento da incerteza e do medo do futuro, aumentam muito e causam um esgotamento emocional muito grande e que pode se tornar um quadro psiquiátrico crescente, que pode ir desde uma crise de ansiedade, ao pânico e uma depressão severa.

Por outro lado, a falta de envolvimento social, mesmo entre as famílias, também pode trazer desequilíbrios emocionais. A falta de abraço e de carinho entre filhos e pais idosos ou indivíduos da família que fazem parte do grupo de risco, também já afetam as famílias.

Formas de Prevenção – O que fazer para manter-se mentalmente em equilíbrio

Os casos de transtornos mentais e de suicídio podem se tornar recorrentes nos próximos meses por falta de estabilidade financeira e caos social. Diante deste quadro, a questão do covid19 pode se tornar o menor dos males.

O esgotamento mental e emocional causados pela quarentena é um fato gravíssimo que não pode ser ignorado. Para isso, já existem medidas que estão sendo divulgadas para que as pessoas consigam se manter mentalmente sãs, até que tudo comece a voltar ao normal. É fundamental o autoconhecimento, pois conhecendo nossas reações e sabendo como funcionamos, mais fácil será detectar algum transtorno mental.

Tenha o mínimo de contato possível com noticiários, e evite totalmente os noticiários alarmistas e desproporcionais; Cuide da sua alimentação; Pratique Hobbys; Evite álcool, cafeína e outros estimulantes; Tenha rotina; Durma bem; Planeje seu dia de véspera; Faça exercícios físicos; Medite; Faça uma terapia que traga relaxamento; Reúna-se com amigos, ainda que online! E o principal: Tenha certeza que isso vai passar, mas se você sentir que sozinho não consegue dar conta e precisa de ajuda, não hesite em procurar um psiquiatra.

Você não precisa conviver com nenhum transtorno mental, pelo contrário, existe ajuda médica e profissional disponível, portanto, não tenha receio e nem preconceito em procurar ajuda!