Animais peçonhentos são classicamente definidos como aqueles que além de produzir, são capazes de inocular em outros organismos, substâncias com diferentes atividades biológicas, que chamamos de venenos ou peçonhas.

Considerando apenas essas características, uma quantidade incalculável de animais são então, classificados como peçonhentos.

Entre as inúmeras propriedades dos venenos animais figura a indução de reações alérgicas, fenômeno que está diretamente ligado às variações de sensibilidade que observamos em cada indivíduo, o que faz com que o contato isolado com alguma dessas substâncias possa ser perigoso para uma pessoa, mas não para outras.

Somente as propriedades tóxicas do veneno, embora muito importantes, não são suficientes para que um determinado grupo de animais seja considerado de interesse epidemiológico ou interesse médico para a saúde pública.

Para essa atribuição de importância é necessário considerar outras características bioecológicas desses animais. Entre elas a principal é a sinantropia, ou seja, a maior ou menor capacidade que determinada espécie tem em ser introduzida, se estabelecer e proliferar em ambientes modificados pelo homem, produzindo infestações que podem ser periódicas ou resultar na formação de populações estáveis ao nosso redor, potencializando os acidentes.

O intenso processo de urbanização, experimentado pelo Brasil há décadas, criou um complexo de condições extremamente favoráveis às espécies sinantrópicas de animais de interesse em saúde ou econômico. O exemplo com maior atenção e visibilidade é o dos mosquitos, entre os quais se destaca o Aedes Aegypti.

Todos os escorpiões são peçonhentos, e além de grande variação na composição e periculosidade de seus venenos, suas espécies também apresentam um amplo espectro em suas capacidades sinantrópicas.

A grande maioria possui veneno capaz de causar apenas quadros dolorosos, o que somado à sua incapacidade de sobreviver às perturbações ambientais causadas pelo homem, faz com que não seja preocupação para a saúde.

No outro extremo dessa realidade, figuram as espécies consideradas de interesse médico. No Brasil atribuímos importância médica a quatro espécies: Tityus obscurus e Tityus bahiensis, que são animais de reprodução sexuada e com capacidades sinantrópicas consideradas muito baixas para o primeiro, e moderadas para o segundo. As espécies mais perigosas de escorpiões brasileiros são  e Tityus serrulatus, que se reproduzem de modo assexuado, por partenogênese, e que apresentam extrema competência sinantrópica e oportunismo ecológico. O veneno dessas

espécies tem ação muito potente e rápida sobre o corpo humano, especialmente para crianças e idosos. O conjunto dessas características tornam essas duas últimas espécies os principais alvos das ações de vigilância ambiental e estratégicas para atendimento aos casos de escorpionismo no Brasil.

A proximidade entre as espécies perigosas de escorpião e o homem permite a aplicação do conceito de praga urbana a esses animais. Assim, observamos o princípio dos 4 ‘As’ durante as vistorias de construções humanas para o enfrentamento do escorpionismo: identificamos os fluxos, veículos e caminhos do Acesso desses animais ao nosso convívio; mapeamos os microambientes onde encontram Abrigo; diminuímos suas fontes de Alimento (insetos domésticos, em especial as baratas) e de onde retiram a Água, que usam tanto para consumo direto como fonte de umidade para seu corpo.

A consolidação dessa estratégia resultou em diferentes experiências de interesse para discussão no campo da construção civil e segurança de seus trabalhadores.

A ocupação das áreas litorâneas pela remoção da Mata Atlântica, associada ao crescimento desordenado das grandes cidades, são fatores que podem ser incluídos entre os macro fatores de base para o agudo aumento do escorpionismo, conforme é documentado pelos sistemas de informação em saúde desde a década de 2000.

Dentro desse quadro, o trânsito de cargas de materiais de construção (telhas, tijolos, madeiras, encanamentos etc.) é reconhecido como importante meio de dispersão desses animais por longas distâncias e para introdução de diferentes espécies de escorpiões em novas áreas.

A utilização de terrenos de encostas, pelo recorte de barrancos e assentamento de residências e outras construções é tido como um fator de risco, uma vez que desaloja escorpiões que naturalmente se abrigam nas frestas dos barrancos e que vão explorar e ocupar as frestas artificiais das casas.

Temos observado, de modo frequente, a utilização desse tipo de terreno em várias inciativas de implantação de projetos para habitação popular. Nossa preocupação aumenta, pois na grande maioria das vezes, são locais periféricos, distantes dos centros de referência para tratamento dos casos de escorpionismo, o que pode retardar a administração da soroterapia específica, obrigatória nos eventuais casos graves.

Outro fenômeno de alto risco para o escorpionismo é a chamada autoconstrução, quando o Peri domicílio é utilizado como depósito para os materiais de construção a espera das obras de melhoria ou ampliação das casas, e depois para os entulhos resultantes dessas atividades. As próprias “técnicas” aplicadas na autoconstrução passam a constituir outro complexo de riscos: desde a falta do uso de EPIs, passando pelas características das instalações que facilitam o deslocamento de escorpiões pelos encanamentos embutidos, até a multiplicação dos microambientes escuros e úmidos, onde irão proliferar em conjunto os escorpiões e os itens de seu cardápio alimentar.

Porém, mesmo os métodos profissionais de construção civil também criam inúmeras condições para a introdução e proliferação de escorpiões. Já observamos a infestação de prédio de 20 andares por escorpiões trazidos em material para reforma da cobertura e que se dispersaram pelos ductos de exaustão dos banheiros; e condomínios de casas, onde várias unidades relatavam a ocorrência frequente desses animais em seus forros, instalações elétricas, galerias de escoamento etc. E ainda o famoso caso dos condomínios de altíssimo padrão do interior de São Paulo, com infestações de escorpiões de mesma intensidade e persistência que as observadas em casas de população de baixo poder aquisitivo.

Nesse quesito, do ordenamento formal das construções e do uso dos espaços, talvez o melhor exemplo para o paradigma do escorpionismo seja a rede de esgotos sanitários, indiscutivelmente um dos principais indicadores de avanço e qualidade da urbanização, porém um dos fatores de mais alto risco para a dispersão e proliferação de escorpiões e de dificuldade de acesso para seu controle nas cidades.

O processo de urbanização cria uma forte barreira para a atuação dos predadores naturais de escorpiões. Poucos desses predadores são capazes de acompanhar sua dispersão em áreas urbanas, e a maioria deles (sapos, lagartos, corujas) também não conta com a simpatia das pessoas, dificultando seu uso como ferramenta de controle, o que diminui consideravelmente a pressão de predação sobre as populações urbanas de escorpiões.