No decurso da nossa história, preocupações econômicas e industriais tais como o capitalismo e a produtividade trouxeram mudanças no trabalho. Os homens eram obrigados a produzirem como se fossem máquinas com a pretensão de garantir que a alta linha de produção fosse atingida conforme as expectativas esperadas pela empresa. No entanto, esse contexto foi importante para que se percebesse o quanto o nível de fadiga e a sobrecarga das tarefas faziam com que o sujeito que trabalhasse acima de suas possibilidades fosse levado ao esgotamento prejudicando consequentemente a qualidade na linha de produção.

A automação do trabalho passou então a ser vista como um mal social, que desumanizava, robotizava e anulava a forma de pensar do trabalhador. Assim, percebeu-se que a forma com que as atividades laborais eram executadas e o como cada um reagiria diante delas, poderiam tornar-se patogênicas aos indivíduos, ou seja, poderiam desencadear problemas físicos, mentais e/ou psicológicos. Então, passou a ser necessário compreender as relações entre trabalho e trabalhador, saúde e doença, discutindo-se novos conceitos que poderiam contribuir para esse vínculo.

Dessa forma, a Saúde Ocupacional foi ganhando campo e destacando-se com o tempo. Favoreceu, para o entendimento dos gestores, que o desempenho inadequado de um colaborador não deve ser observado apenas de forma ímpar, mas sim na interação do sujeito com o ambiente de trabalho.  Temas importantes como estresse, burnout, desempenho, “develolpment” (desenvolvimento), “engagement” (engajamento), “commitment” (comprometimento), time, ergonomia, saúde mental, entre outros, destacaram-se recebendo maior atenção. Os gestores finalmente olhavam para o homem como o principal capital de uma organização e que somente dessa forma seria possível atingir metas na produtividade com qualidade nos serviços.

Mas, as grandes lideranças já conseguiram atingir esse patamar tão elevado em olhar para os seus colaboradores de forma que possam garantir a sua qualidade de vida e a sua saúde mental no trabalho trazendo resultados positivos para a empresa? Ou ainda vivemos consequências das eras anteriores onde os trabalhadores ainda lutam pela autonomia, pelo não acúmulo de funções, preocupações com metas quase inatingíveis e um desempenho diferenciado, para que na hora de sua avaliação possa conseguir um feedback positivo do seu superior?

Segundo registros fornecidos pelo Ministério do Trabalho, o Brasil tem os acidentes como a principal causa de afastamento no trabalho. Posteriormente, estão os distúrbios osteomusculares relacionados ao trabalho (tendinite, bursite e síndrome do ombro doloroso) e seguidamente ocupam os casos de afastamentos por transtornos mentais (depressão, ansiedade, outros). Discute-se que a tendência é a de que os transtornos mentais e comportamentais serão em poucos anos, a principal causa de afastamento do trabalho, uma vez que os acidentes podem ser causados pelos mesmos. Essas são causas que podem estar relacionadas a diversos fatores, como a economia, política e o contexto familiar. Mas, já é sabido o quanto a gestão de uma empresa pode influenciar no trabalho de forma positiva ou negativa.

Em uma conversa com um amigo, pequeno empreendedor, que desabafava sobre a sua sobrecarga de trabalho, ele verbalizava o seu sonho em concretizar um dia o seu desejo: contratar pessoas para ocupar as outras funções que ele realizava, mas desde que a sua regra estabelecida fosse cumprida, a de ser feliz! Sim… um ambiente onde seria proibido resmungar, em que todos poderiam chegar na hora que quisessem, desde que cumprissem com as suas obrigações, iriam com as vestimentas que desejassem e que poderiam comer dos doces disponíveis na sua cozinha. Parece irreal, um tanto fantasioso…

Mas, hoje em dia existem empresas que seguem esse princípio de forma organizada. O intuito desse tipo de gestão é o de trazer o bem estar para os seus colaboradores, trazer a reciprocidade deles em querer produzir e inovar nesse cenário com todo o seu potencial e conhecimento. Já foi comprovado, que pessoas que trabalham apenas pela necessidade sem a menor satisfação não terão o seu melhor engajamento e comprometimento, ficando aquém do seu desempenho. Apenas cumprem as tarefas com o desejo de terminar mais um árduo dia de trabalho, pois se sentem cansadas e não entusiasmadas. Diferentemente daquelas que, motivadas, se dedicarão ao máximo pelo melhor resultado para a empresa.

O mercado de trabalho exige do colaborador uma boa formação, conhecimento diferenciado naquilo que faz e habilidades que coloquem na prática todas as suas experiências adquiridas no tempo de carreira. Mas, o maior destaque será para aquele que terá atitudes comportamentais diferenciadas, melhor se adequando aos valores da empresa. Para tanto, é necessário que a pessoa esteja congruente e plena com aquilo que realiza. Um grande líder deve estar atento a essa causa, não se pode exigir um determinado tipo de prática se não se fornece ambiente para isso.  A comunicação, o sentimento de pertencimento, a preocupação da empresa com a individualidade e o desenvolvimento de cada um podem atingir diretamente as vidas desses colaboradores e a sua forma de atuação. A boa ou a má gestão podem trazer sentimentos de conforto ou insegurança que podem causar reflexos perante a família desses indivíduos, deixando-os mais apreensivos ou com a sensação de realização cumprida.

Sabemos que as pessoas vivem na relação trabalho – família na maior parte de suas vidas, tornando-se um elo inseparável. Acabou-se o tempo em que se dizia que era necessário separar a vida pessoal do trabalho… como já vimos, homens não são máquinas e os fatores psicológicos e emocionais refletem nessa interação. As responsabilidades de um gestor competente não são apenas com as preocupações do seu negócio, já que quem realiza o seu planejamento são os colaboradores. Essa responsabilidade inicia-se desde a rigorosa seleção de pessoas até o suporte que se dá durante as tarefas realizadas pelos indivíduos durante as suas atividades laborais.

Uma contratação bem feita fará com que o candidato tenha ótimo desempenho no seu trabalho porque está agindo de acordo com o seu perfil. É onde a saúde ocupacional inicia assertivamente. O novo integrante deve se identificar com o que faz. O bom líder oferece aos seus subordinados o desejo voluntário de permanecerem no seu trabalho, implicando na estimulação intelectual e na motivação inspiradora para a realização de seus objetivos. A comunicação deve ser positiva, melhorando o desempenho de cada um. Somente assim pode-se contribuir para um clima organizacional favorável à saúde ocupacional, reduzindo fatores emocionais que podem desencadear em ansiedade, depressão e até mesmo no uso abusivo de álcool e drogas como uma forma de compensar esses sentimentos – fatores que poderiam desencadear despesas com acidentes e afastamentos.

A administração positiva é fundamental para a saúde ocupacional, de forma que garanta a saúde mental/ física e o bem estar de seus colaboradores. Entende-se que essas ações devem ser de forma preventiva e não uma preocupação recorrente, de consequências desastrosas causadas na esfera da empresa. A cultura do Brasil ainda traz reflexos da sua história, fazendo com que muitos ainda não priorizem a saúde ocupacional, o bem estar psicológico e emocional do colaborador como elementos fundamentais para a alta produtividade e qualidade nos serviços. Investir e gerir na saúde ocupacional é favorecer a redução de acidentes e evitar trazer trágicas consequências para a empresa. É intervir e construir contextos de trabalhos e uma organização saudável.