Retomar ou não as aulas presenciais é um tema que vem gerando muitos debates, além de suscitar aspectos desafiantes em relação ao impacto dessa decisão. Desafios estruturais e emocionais que afetam diretamente alunos, docentes e responsáveis.

Novas estratégias são exigidas para manter a segurança de todos em uma possível volta às aulas, acompanhadas de um maior acolhimento dos alunos, das famílias e do corpo organizacional das instituições de ensino. Porém, não há dúvidas quanto a sensibilidade, insegurança e ansiedade de todos em relação aos acontecimentos dos últimos meses.

O trabalho pedagógico, assim como diversas outras atividades, precisou ser reinventado. Aulas virtuais foram implementadas e as rotinas de alunos, responsáveis e professores foram totalmente modificadas após a constatação de uma pandemia. Fato que exige hoje um maior alinhamento entre a escola e a família, na tentativa de fortalecer o papel de ambos na construção do saber das crianças e jovens.

A preocupação com os protocolos de segurança e suas funcionalidades aumenta a cada dia e demonstra a real necessidade de uma escuta ativa e eficaz, além de uma maior parceria entre o corpo docente e os familiares, que também são afetados pelo peso desta decisão.

E surgem as perguntas: o rigor e a eficiência com a segurança dos protocolos de cuidados estão garantidos? Por mais que o empenho e a dedicação de docentes, coordenadores, diretores e pais sejam intensos, qual certeza temos de risco zero de contaminação pelo vírus Covid-19 nas escolas?

Psicanaliticamente falando, temos que ressaltar o aspecto relativo à criação de expectativas. É de extrema importância que não sejam alimentadas possibilidades irreais, para não fomentar frustrações e conflitos desnecessários em um momento já tão incerto. O desenvolvimento dos protocolos de segurança deve provocar e incentivar o diálogo entre os educadores e os responsáveis – fortalecendo uma convenção de cuidados onde todos possam sair ganhando.

Analisando todos os personagens deste cenário, de um lado temos o educador que sofre com pressões emocionais, medo e ainda carrega a carga e o peso da responsabilidade da proteção, condução e orientação de uma turma inteira de crianças e jovens que o enxergam como um porto seguro. Do outro lado, encontramos os responsáveis que também sentem na pele os impactos da violência psicológica a qual fomos expostos quando nos deparamos com a insegurança dos riscos de contaminação por um vírus invisível que nos isolou socialmente, modificou as regras de convivência e virou de ponta cabeça a rotina de muitas famílias. E, por fim, no meio de tudo, temos os alunos, ceifados por um isolamento social abrupto, privados do convívio dos amigos e do contato afetuoso e orientador de seus educadores.

Sujeitos envolvidos na dura missão de tentativa de controle de suas emoções, dúvidas e medos. Desafiados a uma nova adaptação cotidiana que não alimente, de modo geral, um pânico crescente, através da busca por uma racionalidade.

Nesse momento é muito importante também buscar entender como os alunos estão percebendo todo esse episódio e como estão se preparando emocionalmente para esse retorno. A priorização do material humano e a cautela com os aprendizados adquiridos durante o isolamento social complementam a necessidade de encontrarmos respostas dentro de todo esse contexto.

Se a escola são pessoas, uma coisa é certa: não se pode negligenciar a vulnerabilidade e a necessidade de se construir conteúdos afetivos que sustentem o atendimento a uma demanda legitimada pela preocupação dessas famílias, pela ansiedade dos alunos e pelo receio genuíno de docentes e de toda a equipe pedagógica em sentirem o peso nos ombros de uma possível sobrecarga de responsabilidades.

O lugar dos encontros que socializa nossas crianças e jovens – e transforma a relação de parceria e troca de aprendizados entre eles e os educadores – vive hoje uma conjuntura de dúvidas e incertezas, reflexos de uma pandemia que assolou o mundo. Um acontecimento inusitado que demonstra e dá sinais da devastação emocional que evidencia a elevação dos casos de transtornos psíquicos, como ansiedade, depressão, fobias e pânico. Uma constatação que aciona o botão vermelho de alerta para que sejam levadas em consideração as dores internas de cada um.

Portanto, percebemos o quão importante e urgente se faz o resguardo e a cautela da decisão de um possível retorno às aulas presenciais, pois o direito a educação plena da criança e do adolescente é garantido por lei, assim como o direito a prevenção e preservação dos cuidados a saúde. A solução para este debate deve ser tomada considerando todos os aspectos aqui mencionados. Atendendo ao coletivo com coerência, de forma segura, saudável, empática e com muito afeto. Um afeto extensivo a todos os envolvidos na mais linda missão de educar e transmitir o conhecimento ao próximo. Preservando e evitando um risco intolerável de retrocesso que possa traumatizar crianças, jovens e educadores no caso de um retorno ao isolamento social restrito.