Ser sensível à dor do outro tem a ver com a nossa capacidade de ser solidário. Uma característica que deveria ser intrínseca a todo ser humano, visto que faz parte do instinto de sobrevivência das espécies.

Porém, ao longo de nossa vida – considerando o histórico da construção das relações interpessoais -, nos deparamos com indivíduos insensíveis emocionalmente a tudo ao seu entorno.

Muitas vezes, acreditamos que uma pessoa que sofreu muito ou enfrentou diversas situações desafiadoras ao longo de sua jornada deverá ser mais empática, colocando-se no lugar do outro com maior facilidade, para sentir na pele a dor externa.

Mas, infelizmente, no terreno das emoções, não existe uma receita de bolo que será idêntica para cada ser humano, e assim o oposto também pode ocorrer. O excesso de dor pode gerar um ser rígido ao ponto de, drasticamente, tornar-se um ignorante afetivo.

Por não conseguir desenvolver habilidades para sentir a dor alheia, torna-se incapaz de solidarizar-se com o sofrimento ou a alegria de pessoas próximas. Há ainda aquelas pessoas que conseguem até ser sensíveis e insensíveis ao mesmo tempo, pois desenvolvem o que chamamos de Fases de Insensibilidade.

Elas se utilizam de mecanismos, como os vícios, por exemplo, que alimentam personalidades inflexíveis e fechadas em um mundo particular, onde o que acontece externamente não lhe afeta.

Conseguem conceber limites para esse isolamento através do controle de suas emoções. Além disso, por temor ao sofrimento, podem tornar-se ainda mais insensíveis e frias.

Esta habilidade está ligada ao instinto de autopreservação que é inerente a todo ser humano, no qual busca tornar-se invisível para que não seja confrontado por sua falta de solidariedade.

Em muitos casos, podemos destacar outra questão psíquica que é a genuína dificuldade em demonstrar carinho ou expressar emoções, pelo simples fato de que isso não foi aprendido pelo indivíduo – ou este não foi preparado para isso ao longo de sua vida.

Não recebeu carinho, não se sentiu acolhido e não teve a experiência da empatia. Ou seja, não se pode dar o que nunca se teve. Estas pessoas criam uma blindagem emocional que os impede de chorar, se emocionar, ou mesmo de controlar seus próprios sentimentos.

Por não perceberem que só aprendendo a gerenciar suas emoções poderão enfrentar melhor os medos, as inseguranças e, assim, furar os bloqueios que os impedem de escancarar sensações de forma a tornarem-se um pouco mais sensíveis à dor do outro.

Porém, as causas para a insensibilidade podem ir além das complexidades dos relacionamentos humanos. Indivíduos apontados como frios ou racionais podem estar sofrendo de um transtorno psicológico chamado Alexitimia – ou Analfabetismo emocional.

Caracteriza-se por pessoas que não conseguem distinguir sensações corporais, como a fome e dores físicas, das angústias emocionais – como, exemplo, ansiedade.

São incapazes de manifestar ou descrever sentimentos próprios, e muito menos possuem, no rol de suas habilidades, condições para lidar com as emoções alheias. Sentimentos como tristeza, nervosismo, alegria, cansaço e irritabilidade.

Dificilmente são compreendidos, o que os impede de se colocar no lugar do outro, por não fazer parte de seu senso comum. Gerenciar emoções ou verbalizar seus conflitos psicológicos não são ações rotineiras para um alexitímico.

Ele responde às adversidades de maneira corporal e não por palavras. Ou seja, se ele não entende sua dor, como irá compreender a dor do outro? Se não alcança o real sentido do afeto, como poderá dar esse carinho para quem necessita?

Mas todas essas sensações ou a falta delas estão camufladas no inconsciente de quem sofre com o analfabetismo emocional. Na maioria dos casos, o afetado não tem consciência do seu problema, o que implica em vivências emocionais dolorosas, visto que sofrem com julgamentos de pessoas próximas que os consideram frios e até mesmo egoístas.

Motivos estes, pelos quais muitos vivem isolados pela falta de entendimento que faz com que suas relações sejam desgastadas e difíceis. Além disso, podem se tornar agressivos e impacientes com seu entorno.

O acompanhamento psicológico, ou psicoterápico, é indicado para casos em que o paciente não consegue lidar, individualmente, com essas questões. E através da psicoterapia são aplicadas técnicas de abordagem verbal e exercícios de relaxamento que objetivam provocar reações que anulem a inexpressividade, eliminando a dor e o sofrimento interno.

O desafio é auxiliar o alexitímico a construir, de forma consciente, mecanismos e estratégias para que possa identificar o que sente, transformando isso em palavras e, consequentemente, diferenciando suas emoções através do autoconhecimento.

Posto isto, será capaz de formular uma identidade fortalecida que permitirá o trânsito eficiente e com menos embaraços nas relações sociais que possa vir a atrair para sua vida.

Entretanto, o que temos que ter em mente é que a desordem emocional e mental que leva uma pessoa a ser insensível à dor do outro pode ser muito mais que uma simples frieza, egoísmo ou animosidade.

Pode ter um grande sofrimento psíquico envolvido, evidenciado por uma dor interna que impossibilita a interação empática natural. Mas lembre-se: não tem qualquer problema em não se conseguir curar a ferida do outro se não estamos preparados para curar nossas próprias feridas.

Cada um possui seu tempo. Nem sempre o que funciona para alguém também funcionará da mesma forma para mim. Somos seres únicos e intensos. Agimos, sentimos e somos diferentes.

E isso tem que ser respeitado. Ao identificar uma pessoa com características relativas a um analfabeto emocional, tenha paciência e oriente na busca por ajuda de um profissional experiente, que possa auxiliar na definição correta de seu estado patológico – e também na classificação adequada das condições de vulnerabilidade psicológica em que ela se encontra.