De acordo com uma pesquisa da UFMG em 2020, 24,9% dos empreendedores afirmaram que foram muito afetados psicologicamente pela pandemia: a necessidade do acompanhamento e cuidados com a saúde mental e início do uso de medicamentos, como antidepressivos, ansiolíticos ou ambos nesse período, foi relatada por 15,6% dos entrevistados. No entanto, o problema de saúde mental no empreendedorismo precede a pandemia, e é por isso que é necessário falar cada vez mais sobre a importância do bem-estar emocional e de que forma esta impacta no rendimento dos mais diversos profissionais.

Um estudo realizado pelo professor Michael Freeman, da Universidade da Califórnia revelou que empreendedores têm:

  • 50% mais propensão de terem problemas mentais;
  • Duas vezes mais chances de sofrerem de depressão;
  • Tendência triplicada de fazerem abuso de álcool e drogas;
  • Dez vezes mais probabilidade de desenvolverem bipolaridade;
  • Inclinação dobrada de experimentarem pensamentos suicidas;
  • O dobro de chances de serem internados em um hospital psiquiátrico.

Além disso, segundo um estudo de 2019 da Organização Mundial da Saúde (OMS), 264 milhões de pessoas sofrem com depressão e ansiedade no trabalho.

Foto: Alberto André, CEO do Plusdin

Assim, em apoio ao Setembro Amarelo, mês de prevenção ao suicídio, entrevistamos o CEO da Plusdin, Alberto André, que tem depressão diagnosticada, para contar detalhes de como é ser um líder e ter que conviver com a doença, e falamos com a  Mônica Hauck, CEO da Sólides, sobre a relação entre saúde mental, gestão de funcionários e o mercado de trabalho.

Confira:

Alberto André, CEO do Plusdin.

Quando e como descobriu o diagnóstico de depressão?

Meus primeiros sintomas surgiram em 2012, mas eu não soube identificar na época, pela falta de conhecimento e ceticismo que eu tinha em relação à doença. As peças fundamentais para me alertar sobre meu quadro depressivo foram meus amigos e familiares. Por meio deles, descobri que eu tinha um problema e procurei ajuda de um profissional especializado. Assim, meu diagnóstico foi comprovado em setembro de 2018.

 

Há alguma dificuldade em aceitar a doença? Como foi esse processo para você?

O principal desafio para quem enfrenta a depressão é aceitar, reconhecer e conviver com os impactos que ela causa, além disso o acompanhamento clínico é imprescindível para obter qualidade de vida em todos os âmbitos da nossa vida. Para mim, a ajuda de outras pessoas foi fundamental para me dar um suporte, e por isso quero que minha história também seja uma inspiração para dar força para outras pessoas que passam por algo semelhante.

Qual foi o primeiro episódio que você se recorda que deu origem a sua depressão?

Eu sempre passei por problemas para lidar com fortes emoções, algo normal, mas o problema é quando isso se torna um transtorno. Aos meus 13 anos, ocorreu o primeiro episódio de transtorno mental na minha vida com a perda da minha bisavó, que era um dos pilares da minha família. Ao longo da minha trajetória, minha mãe sempre teve que trabalhar desde cedo para sustentar a família, frequentemente eu enfrentava situações de sofrimentos, perdas e dores, mas não é tão simples como se pensa. Alguns episódios interferem demais na nossa vida pessoal e profissional, e contribuem para originar transtornos mentais.

Você acredita que empreendedores têm mais chances de ter depressão? Por que?

A vida de um empreendedor não é fácil, enfrentamos altos e baixos por grandes desafios e imprevistos do dia a dia. Principalmente na fase inicial do empreendedorismo, as responsabilidades, as preocupações e a cobrança em ser bem sucedido são grandes fatores para causar distúrbios emocionais e mentais. Não sei se empreendedores têm mais chance de desenvolverem depressão, até porque é um quadro clínico que pode ser desencadeado por diversos motivos. Eu encaro como uma doença, que precisa ser tratada, medicada e acompanhada. Encarando assim, acredito que qualquer pessoa possa desenvolver sim.

Como é a experiência de ser CEO de uma empresa com esse diagnóstico?

As consequências dessa doença na vida de um empreendedor são devastadoras, afinal, a empresa precisa de você para se manter em perfeito funcionamento. Sozinho, é difícil manter-se 100%. Atualmente, faço tratamento com profissional especializado, e isso me permite ter mais qualidade de vida para eu saber lidar com as diversas situações impostas tanto na minha vida profissional, como pessoal. Em momentos de crise eu sei que não posso tomar decisões que possam impactar outras pessoas dentro da empresa. Alguns dos principais papéis de um CEO é inspirar e motivar seus colaboradores, e para fazer isso com transtornos mentais, é preciso ter muito autoconhecimento para não prejudicar o desenvolvimento da empresa.

Você já teve algum problema na sua empresa que impactou e intensificou suas crises emocionais?

Eu sempre fui movido a desafios, sempre entrego toda minha energia e capacidade intelectual quando se trata de algum objetivo que eu quero alcançar. Foi assim no início da minha carreira em 2008, rapidamente eu me tornei um profissional referência. Junto com o início do meu tratamento para depressão, abri um negócio com mais três sócios e voltei a ser o profissional que eu era, com a minha capacidade máxima. Mas, em abril de 2019, por vários problemas financeiros na empresa, eu tive uma crise emocional muito forte. Neste momento, eu não conseguia ver nada de positivo nem no âmbito pessoal, nem no profissional. Não conseguia sair da cama, e teve um dia que os colaboradores da minha empresa estavam no meu quarto falando que precisavam de mim e que estavam ali para me apoiar. Ver aquelas pessoas me pedindo para não abandoná-las e dizendo o quanto precisavam de mim foi crucial para eu enfrentar meus problemas e retomar minhas atividades.

Quais são as medidas que você considera importantes para quem tem esse diagnóstico?

As medidas que eu considero importante para quem tem esse diagnóstico é realizar acompanhamentos especializados, tomar minha medicação corretamente e praticar atividade física. Além disso, saber identificar os sintomas e o que você pode fazer para amenizá-los são fundamentais.

O que o setembro amarelo representa na sua vida?

Recentemente, eu tive uma tentativa de suicidio. É muito difícil falar o que você sente, a gente não quer incomodar as pessoas com nossos problemas,  isso faz você pensar em alternativas para cessar a dor. E quando você está passando por isso, é só isso que você pensa. Eu aprendi ao longo desses anos que quem convive com transtornos mentais passa por lutas diárias, em momentos você se sente bem e em outros muito ruim. O mais difícil é quando você não consegue controlar as emoções, a sensação é horrível, só quem passa por isso sabe. São vários vários episódios. Eu não venci a depressão, é uma luta pra sempre, especificamente no meu caso, depois me consultar com muitos especialistas, descobri que de 0 a 4 anos eu tive diversas convulsões quando criança, e isso afetou a formação do cérebro, onde eu não conseguia filtrar minhas emoções e eu agia por impulso, eu não sabia que era um problema mental. O setembro amarelo é essencial para levarmos cada vez mais informações a quem não compreende. A campanha é de acolhimento, já que muitas pessoas passam pelo que eu passo, apenas não foram diagnosticadas. O Setembro Amarelo é apenas uma porta de entrada para que todos passem a encarar transtornos mentais da forma que deve ser tratada: tem solução, tem tratamento, tem gente que se importa.

O que você considera importante para o seu tratamento?

Fui diagnosticado com transtorno de ansiedade generalizada e um TDAH. No início do tratamento, tratamos a ansiedade para ver se o TDAH iria responder junto com a ansiedade, mas não ocorreu, então tive que tomar remédios para TDAH ao longo do meu tratamento. Realizar acompanhamentos com psicóloga, psiquiatra, mentores, mentoras e o uso de medicação foram essenciais para manter a qualidade de vida. Além disso, praticar atividades físicas com frequência e receber apoio da minha família, amigos e colegas de trabalho são determinantes para que eu avance no tratamento.

Você acha que o tema prevenção a depressão e ao suicidio, deve ser abordado nas escolas e empresas?

A escola é o principal espaço para formação das crianças e adolescentes, é muito importante que o tema sobre saúde mental seja mencionado diariamente. Além disso, questões relacionadas ao bullying são fortes fatores que ocorrem frequentemente no ambiente escolar, é preciso que professores estejam sempre atentos e dialogando sobre o tema com os alunos. Nas empresas, é preciso não apenas abordar sobre o tema, mas ser ativo para que o ambiente de trabalho seja confortável, cheio de empatia e um lugar de escuta. Ambientes de trabalho tóxicos são uma fábrica de pessoas com problemas de saúde mental.

Você acredita que o Bullying está relacionado às pessoas desenvolverem um quadro depressivo?

Eu sempre lidei com rejeição, tive lábio leporino, uma má formação congênita que gera aberturas nos lábios ou palato e afeta aspectos físicos e funcionais de seus portadores. Devido a essa anomalia facial, eu sofria bullying com diversos apelidos maldosos, e isso também foi um fator que contribuiu para desencadear os transtornos mentais. Acredito que pessoas que sofrem algum tipo de bullying são mais suscetíveis a desenvolver quadros depressivos, é preciso sempre orientar as crianças sobre os impactos que essas brincadeiras maldosas podem impactar na vida do outro. O conhecimento é a melhor forma para evitarmos situações desse gênero.

Sobre Alberto André

Alberto André, é cofundador e CEO do Plusdin.

 

Abaixo segue entrevista da CEO da Sólides Mônica Hauck

De que forma a saúde mental dos profissionais está relacionada com o nível de produtividade no trabalho?

Colaboradores psicologicamente saudáveis produzem mais e melhor. Não resta dúvida que o nível de satisfação e engajamento dentro das corporações são indicadores de performance. Temos falado bastante sobre gestão de pessoas e os benefícios diretos desta prática, que culminam em vantagem competitiva.

Como líderes e gestores podem identificar se um colaborador está com problemas em relação à saúde mental?

Antes de mais nada, é preciso que gestores tenham um olhar humano em relação aos seus colegas de trabalho, por meio de uma conexão honesta. O acompanhamento do colaborador deve ocorrer desde a sua chegada, por meio da análise de seu perfil, assim como a realização de pesquisas de avaliação, feedbacks à liderança, entre outras práticas que auxiliam no monitoramento. Também é importante estar atento aos sinais como irritação e desânimo fora do habitual, e apatia em relação às atividades e organização, que indicam que algo está errado. Perda de resultados, baixa participação, faltas, e mudanças de comportamento, são todos indícios de que pode haver algum problema.

O que empresas devem fazer quando for analisado que algum profissional está enfrentando a depressão, ansiedade, pânico, ou outros problemas que envolvem saúde emocional?

As empresas devem estar preparadas, principalmente no pós-pandemia, oferecendo mais do que auxílio terapia. É necessário um olhar humano, próximo e cuidadoso com o ativo mais importante da organização: o capital humano. Sobretudo, respeito ao que cada colaborador tem vivido, por meio da empatia e gestão próxima que deve ser realizada pelas lideranças. Cada doença requer um tratamento específico e é dever da empresa auxiliar como for necessário para que o profissional se sinta seguro e à vontade para seguir trabalhando ou se afastar, caso necessário. Sugerir a procura pela ajuda de um especialista é sempre a melhor saída. É importante o incentivo, uma vez que ainda existe muito preconceito, e até mesmo, vergonha, em relação a cuidar da saúde mental.

De que forma a gestão de colaboradores pode contribuir para um ambiente saudável para profissionais?

Desde o momento da contratação, colocando a pessoa certa no lugar certo, até a gestão de carreira do colaborador, são essenciais para um ambiente com saúde nas relações, inserção à cultura e valores. A integração e o engajamento a médio e longo prazo, são indicadores de sucesso. Um ambiente favorável ao florescimento e à longevidade das conexões são também índices de saúde.

Qual a importância da área de recursos humanos também fazer um acompanhamento de líderes em relação à saúde emocional?

Líderes são as peças-chave na conexão dos liderados à cultura e objetivos da companhia. Assim, precisam também de todo suporte para manterem a saúde psicológica, assim como um canal aberto para comunicação e feedbacks, pesquisas de satisfação e gestão de carreira. Desenvolvê-los constantemente, incluindo treinamentos de reciclagem, e prepará-los para o incerto e para o novo, são formas de cuidar da saúde mental dos líderes também.

O que a área de recursos humanos pode fazer para que não aconteça bullying dentro de uma empresa?

Segurança psicológica é fundamental. A área de recursos humanos deve estar frequentemente em contato com cada membro da equipe, oferecendo um eficaz e claro canal de comunicação, onde pessoas se sintam seguras e à vontade para relatar problemas e trocar ideias. Assim, o setor de RH deve ter atitudes eficazes em caso de problemas. Iniciativas como palestras e dinâmicas e ações de endomarketing de modo geral, considerando os valores da companhia, também precisam acontecer.

Quais ações as companhias podem fazer no dia a dia para oferecerem um ambiente agradável?

Além do oferecimento de benefícios como por exemplo, auxílio terapia e bonificação mediante conquista de resultados, companhias devem cumprir regras relacionadas às leis internas e às trabalhistas, criar e ter ativo um comitê de compliance, e desenvolver ações que tragam saúde física e emocional. O envio de mensagens, por exemplo, fora do horário de trabalho, impacta na qualidade do ambiente.

Como líderes devem estar alinhados com o RH para o oferecimento de um ambiente saudável?

Líderes devem sempre estar em contato com a área de recursos humanos. Hoje inclusive, a automatização de processos, otimizou o fluxo e aumentou as informações, acessíveis em dashboards, que auxiliam nos processos de análises e percepções sobre cada um dos colaboradores de forma individualizada e coletiva.

Como deve ser o cuidado com os colaboradores no período de retomada do trabalho presencial?

A transição precisa ser gradual, respeitando o tempo e as experiências de cada um. É necessário um olhar humano e cuidadoso para este novo momento, que estamos aprendendo a lidar. A experiência precisa ser boa e gatilhos positivos precisam ser considerados a todo instante. Além das considerações em relação ao espaço físico, a relação precisa ser de confiança. O funcionário precisa se sentir bem e à vontade para que possa desenvolver suas habilidades e entregas com mais velocidade e qualidade. Empatia, calma e respeito são fundamentais neste processo.

Qual a importância do Setembro Amarelo e por que é fundamental abordar sobre a prevenção ao suicídio e outros problemas relacionados com saúde mental dentro das empresas?

O Setembro Amarelo vem para reforçar a importância da saúde mental e de como o assunto precisa ser discutido e levado a sério. O trabalho precisa estar relacionado ao prazer e ao florescimento. Gatilhos como conquistas e crescimentos precisam ser considerados. A instrução, a preparação e a capacitação tanto no desenvolvimento de people skills quanto do ser humano, são aspectos importantes que precisam ser considerados pelas companhias.

Sobre Mônica Hauck:

Mônica Hauck é graduada e pós-graduada pela UFMG e FGV, com MBA em Gestão Empresarial e formação em Inovação e Empreendedorismo pela Universidade de Stanford.