Dando sequência na série “10 Minutos no Futuro”, o Instituto Fórum do Futuro conversa com o pesquisador da Embrapa Cerrado, Lineu Rodrigues, considerado um dos mais notáveis especialistas nesta temática.

O pesquisador escreveu um artigo sobre a gestão da água no livro “As Tecnologias Sustentáveis que Vêm do Trópicos”, a ser publicado no dia 12 de setembro.

Fernando Barros, diretor de comunicação estratégica do Fórum do Futuro, deu start na entrevista dizendo que para limpar um litro de resíduo industrial e de esgoto urbano são utilizados nove litros de água limpa, enquanto que a água da agricultura praticamente volta intacta para a natureza, questionando o pesquisador da Embrapa como eles têm procurado consubstanciar essas imagens diante da opinião pública.

“Esse é um trabalho intenso que a gente faz, a gente discute muito isso o tempo todo, em como se comunicar melhor, principalmente com setor urbano. Eu acho que alguns problemas hoje são: viver num mundo polarizado, então a gente tem que buscar formas de melhor introduzir essas questões, que produzir alimento no público mais urbano. Se a gente for pensar que 80, 85% da nossa população vive em 1% do nosso território, como a gente vai se comunicar com essa população toda que tá vivendo nessa área urbana? Não é tarefa fácil, cai nessa questão da polarização, mas a gente tem trabalhado muito dessas questões”, argumenta Rodrigues em resposta ao questionamento de Barros.

De acordo com Barros, o Brasil será um player muito especial na questão da água, já que, atualmente, é dono de 12% do total de água doce do planeta – o que torna esse recurso natural um elemento estratégico.

Para explicar o que tem em agenda até 2050, Rodrigues ponderou que, se considerar a água que vem de fora, pode-se chegar a 18%, e que o ponto-chave da questão é a distribuição irregular do bem natural.

“Nós temos muita água, mas, nossa maior parte fica no Amazonas, e ali nós temos pouca gente. Então, a água no Brasil tem essa distribuição espacial complicada – tem lugar que tem muito, tem lugar que tem pouco. Temos também a questão temporal, onde se tem muita água no período da chuva, e pouca água no período da seca. Com o aumento da demanda de água até 2050 em torno de 40%, vamos ter que ser mais eficientes no uso dela”.

Outro tópico debatido foi quanto à irrigação, vista ainda como uma ferramenta de negócio na agricultura. No entanto, a irrigação se coloca na perspectiva de eficiência e de gestão, como uma ferramenta de economia do uso da água.

Nesse contexto, o pesquisador acrescenta que “pensando hoje na produção de alimentos, não vamos conseguir atingir patamares de aumentar 60%, 100% sem a irrigação”. Outro ponto importante, que a agricultura irrigada utiliza uma parte da água, que a gente chama de Água Azul – aquela água que a gente tira do rio para suprir as necessidades da cultura quando não tem água da chuva. Mas, grande parte dessa produção vem da chuva. A agricultura irrigada traz alguns benefícios em relação à questão da água, ela ajuda a ciclar mais rápido. E com isso vai gerar riqueza e bem-estar social das populações rurais”.

Para efeito de comparação, Barros informou que 30% dos alimentos produzidos pelos EUA – que é o líder mundial – vem de irrigação, enquanto que no Brasil é de apenas 6%. Rodrigues enfatiza que no Brasil, são irrigadas menos de 3% da área, e para avançar nessa questão, o país precisa ter uma boa gestão de água. “A gente tem que monitorar mais para saber o quanto está gastando. Temos que ter ferramentas melhores para estimar o quanto de água a cultura está utilizando para entender bem essa questão do balanço hídrico”, conclui.