A sigla PANC significa “Plantas Alimentícias não Convencionais”, nomenclatura criada pelo biólogo Valdely Ferreira Kinnup, em estudo realizado em 2007. Refere-se a algumas espécies de plantas ou parte delas, que podem ser consumidas como alimento. São vegetais silvestres, nativos e brotam praticamente sozinhos, sem que sejam necessários cuidados específicos para o seu cultivo.

Desenvolvem-se com facilidade em qualquer tipo de solo, como jardins, calçadas e terrenos. E por conta disso, são rotuladas de modo equivocado como mato, ervas-daninha e, até praga. (Kinnup, 2007).

No Brasil são pouco divulgadas, mas existe cerca de 45 mil espécies nativas, sendo apenas 3 mil conhecidas e destas pouquíssimas são empregadas na alimentação (Zappi et al., 2015).

As PANCs detêm grande potencial alimentício, bem como por sua grande diversidade de vegetais com excelente composição nutricional, ricas em macronutrientes (carboidratos, proteínas e lipídios), e compostos bioativos, que incrementariam e diversificariam a dieta da população brasileira, a um custo acessível quando utilizadas na dieta. Podem assim, promover benefícios à saúde, além de fortalecer a biodiversidade local. Muitas destas hortaliças e frutas não convencionais eram aproveitadas na culinária pelas avós e bisavós. Contudo, em decorrência do êxodo rural, a migração da população para as grandes cidades, a modernização da agricultura, somado ao acentuado desenvolvimento da indústria alimentícia e o atual estilo de vida, fizeram com que estes hábitos e costumes ficassem esquecidos.

Seu consumo pode ser de forma direta (fruto ou verdura) e indireta (amido, fécula ou óleo). Na atualidade não compõe o cardápio habitual da grande maioria das famílias, bem como não são comumente encontradas nas grandes redes de supermercados. Dado relevante é que na maioria das vezes são orgânicas e não são de origem transgênica, o que as torna mais saudáveis. O consumo pode variar de acordo com as partes comestíveis (folhas, frutos, flores, sementes, vagens, raízes, ramos, brotos) e o preparo (in natura, sucos, refogados, saladas, doces, geleias, sorvetes, bolos, refogados).

Importante destacar que é imprescindível saber identificá-las. Algumas delas, como a taioba, podem confundir até mesmo quem já conhece bastante o assunto. É preciso observar bem e ter guias confiáveis. Faz-se necessário informar-se em fontes seguras a cerca das espécies apropriadas ao consumo humano e a forma mais adequada de preparo, visto que não existe uma regra exata para o reconhecimento e diferenciação de cada uma, sendo importante saber seu nome científico e consultar sites seguros, como EMBRAPA ou ANVISA, para se certificar. Desde 2015, dispomos do livro “Plantas Alimentícias Não Convencionais” (Panc), do Brasil, que pode ser uma boa fonte de consulta para o consumo consciente e seguro dessas ervas. Este é o primeiro “guia” de identificação de Pancs no Brasil – nele são apresentadas 351 espécies e 1.053 receitas sugeridas.

Dentro desse contexto, é relevante citar a variedade ecológica brasileira, em destaque na região Amazônica, onde são inúmeras espécies exóticas não exploradas e com grande potencial de compostos com atividade antioxidantes, dentre eles os compostos fenólicos, carotenoides, dentre outros.

A principal fonte de antioxidantes provém da alimentação, principalmente das frutas e hortaliças, lembrando que estas substâncias são primordiais para a manutenção do organismo, promovendo proteção e benefícios à saúde (Negri et al., 2016; Silva et al., 2015).

De acordo com Queiroz et al. (2015), há incentivo por parte do governo brasileiro para o consumo de hortaliças não convencionais, visto que são excelentes fontes de nutrientes de baixo custo e por conta disso acessíveis financeiramente e de fácil cultivo. São facilmente encontradas no meio ambiente, podendo ser incluídas nas mais variadas preparações, como doces, salgados, sucos dentre outras. Em geral, são plantas que não fazem parte da gama de plantas consumidas nos grandes mercados tradicionais. Contudo é possível cultivar algumas delas em seu jardim, em vasos e em pequenas hortas. Com certeza vão enriquecer o cultivo como um todo e tornar a horta orgânica ainda mais diversa e sustentável, já que restauram a funcionalidade do ecossistema, e quando presentes trazem benefícios ao solo e as outras espécies presentes no espaço. O consumo das PANCs no Brasil é também uma maneira de incentivo à produção orgânica de alimentos, pois respeita o meio ambiente e auxilia a regulagem do solo e do ecossistema como um todo.

Uma das espécies mais conhecidas é a ORA-PRO-NÓBIS (OPN), também chamada de carne vegetal, em decorrência da sua composição em aminoácidos, o que lhe confere alto teor de proteína. É encontrada em abundância especialmente no Sudeste, mas está presente também em outras regiões. Trata-se de uma trepadeira, desenvolve-se em vários tipos de solo e de clima. Seu cultivo é bem simples, éla é bem resistente e além do teor proteico é rica em vitaminas do complexo B, A e C, fibras e fósforo. As folhas são sua parte comestível, podendo ser consumidas secas ou frescas, cruas ou cozidas e até acrescentadas a massas de pães, ou mesmos nas preparações como carnes refogadas e outras hortaliças. A ORA-PRO- NÓBIS já foi utilizada e obteve boa aceitação pelo público no preparo de 10 tipos de alimentos: biscoito de queijo, bolo de limão, bolo de chocolate, bombom, doce de abobora, doce de banana, hambúrguer de frango, hambúrguer suíno, pão de cebola e torta de legumes.

Torta de Óra-Pro-Nóbis

Ingredientes:

Massa:

  • 3 ovos;
  • 1 copo de leite desnatado;
  • 1 copo de óleo vegetal;
  • 1 copo de farinha de trigo;
  • 1 col. de sopa de fermento em pó químico;
  • 1 pitada de sal.

Modo de preparo:

Recheio:

  • 1 peito de frango;
  • 1 cebola média picada;
  • 2 tomates maduros picados
  • 200g de muçarela;
  • 500g de folhas de Óra-pro-nóbis;
  • 1 col de sopa de coentro ou cheiro verde picados.