Sabemos que muitas empresas investem em treinamentos com o objetivo de capacitar cada vez mais seus colaboradores e poderem se superar no mercado competitivo. Dedicar-se ao desenvolvimento de seus funcionários os tornarão mais competentes, ou seja, seus conhecimentos tornam-se mais amplos e as suas habilidades práticas mais apuradas.

Outra perspectiva para o progresso nos negócios é a Saúde e a Segurança Ocupacional desses trabalhadores. Mas até que ponto as organizações estão dispostas dedicarem-se a esse fim? Também é perceptível o número de treinamentos que são realizados voltados a essa finalidade.

Mas, a preocupação é com o bem estar dos colaboradores ou o medo das fiscalizações e as multas por não cumprirem com o programa estabelecido a ser efetivado anualmente? Isso dependerá da cultura de cada empresa. Porém, os resultados serão diferentes. Aquelas instituições que valorizam o capital humano terão um desempenho diferente das que apenas cumprem com as suas obrigações de acordo com as normas estabelecidas.

Então, por que, de acordo com o Cadastramento da Comunicação de Acidente de Trabalho – CAT, o Brasil ocupa a 4º posição no ranking mundial em mortes causadas por acidente de trabalho? Por que retrata uma preocupação crescente nas taxas de acidentes de trabalho?

O ano de 2018 (ainda não atualizado) registrou mais de 800 mil acidentes de trabalho. Os treinamentos em prevenção de acidentes não estão ocorrendo? Mas, como tantas empresas estão exercendo essa atividade e esse triste levantamento acusa números tão altos? Estes apontam que, entre os anos de 2012 a 2018, um acidente de trabalho acontecia a cada 48 segundos, o equivalente a uma morte a cada 3horas 38min e 48segundos.

Pesquisas também mostram que a causa mais comum de acidentes de trabalho é pela ausência do uso de equipamentos proteção individuais – EPI’s e também pela não aceitação ao cumprimento das normas por parte dos trabalhadores. No entanto, isso mostra que de 90 a 95% desses acidentes poderiam ter sido evitados. Ou seja, o comportamento humano é um dos aspectos que desencadeiam essas ocorrências.

O que é Risco Psicossocial?

Nas organizações os fatores de riscos psicossociais podem ser diversos, como a demanda excessiva de trabalho e a falta de controle dos mesmos, o assédio moral, a falta de comunicação, a valorização do trabalho, a iniquidade entre os profissionais e outros elementos que afetam diretamente o trabalhador e a sua saúde mental.

Porém, é importante ressaltar, que quando se fala em riscos, devemos analisar o sujeito numa amplitude maior, num visão macro.  Não considerar apenas o ambiente de trabalho, mas o contexto histórico-social no qual se está inserido. As suas relações com os amigos, com os familiares e os fatores econômicos, por exemplo, também merecem maior atenção. Essas, são condições que podem contribuir para o estresse, a depressão, as alterações de sono ou outros sintomas que afetariam a sua atividade laboral. São considerados então, os fatores psicológicos, sociais e emocionais do colaborador na condição de risco.

Diante desse olhar, em 2006 o Ministério do Trabalho (MT) reputou a partir da Norma Regulamentadora 33, a garantia à saúde e à segurança ocupacional do trabalhador que atua em espaços confinados, o risco psicossocial para a preservação da vida.

A partir de então, em 2013, iniciou-se a fiscalização das Delegacias Regionais do Trabalho – DRT’s nas empresas que possuíssem atividades nas principais normas regulamentadoras – as NR’s 20, 33 e 35 (trabalho, inflamáveis, combustíveis, espaço confinado e altura) – compreendendo que todo trabalho de risco deve ser acompanhado por avaliação psicossocial e treinamento comportamental específico.

O Ministério do Trabalho considera o risco psicossocial como uma das principais causas de acidentes e aponta a avaliação psicossocial como uma forma de prevenção. Essa, deve ser realizada por psicólogos devidamente capacitados, contribuindo para a redução desses danos.

 

A Avaliação Psicossocial no Trabalho Portuário

O trabalho portuário é considerado um trabalho de risco, ou seja, com perigo iminente.  A evolução na área da segurança ocupacional, incluindo a ergonomia é relevante. Basta analisarmos como a tarefa era realizada antigamente, onde o trabalhador portuário carregava sacos de 60 quilos nas costas e nem se falava em EPI’s.

Mas, o histórico de incidentes/acidentes ainda apresenta uma trajetória de resultados estatísticos bastante desfavoráveis. Muitos desses casos que terminaram em tragédia e também poderiam ser evitados. A engenharia de segurança traz em questão, os riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos.

Diante de tantas discussões relevantes na área da saúde mental do trabalhador, por que não destacar o risco psicossocial?

O trabalhador portuário tem como principais normas as NR’ 29, 33 e 35. Conforme já destacado nesse artigo, essas ou outras que se estendem ao trabalho em risco, merecem atenção na análise psicossocial. Todos esses colaboradores passam pela avaliação psicossocial? Por que alguns resistem ao uso de EPI’s?

As organizações que visam maior produtividade e qualidade nos serviços e devem valorizar cada vez mais o capital humano. Constata-se que não bastam as habilidades e os conhecimentos específicos de seus empregados para exercer melhor uma determinada função. Mas, que as suas atitudes comportamentais devem diferenciar seus colaboradores, pois podem minimizar os riscos e causarem menores prejuízos, além de preservar muitas vidas.

A pressão diária e as metas a serem estabelecidas no porto podem e devem ser harmonizadas à segurança desses profissionais.

 

A Avaliação Psicossocial

A avaliação psicossocial insere o sujeito no seu contexto de vida, investiga seu nível cognitivo perante a percepção de riscos e controle, o quanto geri a sua saúde, analisa fatores estressores em seu ambiente e as suas emoções em diversas vertentes. O ponto relevante é a análise do modo como cada um enfrenta os diversos estímulos do ambiente que impactam sobre as suas emoções e pensamentos, influenciando assim na tomada de decisão nas suas atitudes.

Portanto, a saúde e o bem estar do trabalhador portuário tem relevância direta com o seu desempenho para que suas atividades sejam seguras. É importante afirmar que todas as tarefas desenvolvidas estão interligadas entre si, assim a postura comportamental é fundamental para o sucesso e a segurança do processo, devendo por exemplo:

  • Ser responsável;
  • Cumprir as orientações de trabalho (Procedimentos, Instruções, Rotinas);
  • Ter atenção e concentração no desempenho das atividades;
  • Uso correto de uniformes e equipamentos de segurança obrigatório;
  • Autogestão de saúde.

A avaliação Psicossocial interpreta as circunstâncias apresentadas na vida do sujeito de acordo com a sua atividade laboral. Irá avaliar aspectos emocionais e clínicos, a vulnerabilidade ao estresse e a cognição. O processo da avaliação de riscos é remover um perigo ou reduzir o seu nível de risco pela adição de precauções ou medidas de controle. Esse tipo de avaliação pode servir como um dos modos preventivos a acidentes laborais.

 

Prevenção

O Brasil é um dos países que mais tem impacto negativo na economia, causados por afastamentos de trabalho relacionados à saúde mental. Isso representa custos em cerca de 3,5% do PIB.  Estima-se que em pouco tempo esse será o principal motivo do trabalhador desligar-se temporariamente da sua função para tratamentos psicológicos ou até mesmo médicos, em casos mais graves.

A Segurança do Trabalho deve ser entendida como uma função multidisciplinar, buscando identificar todos os riscos que a atividade pode trazer. É importante que essas estratégias de gestão adotem medidas preventivas na saúde mental dos funcionários para que se possa favorecer para a redução desses índices negativos.

Entende-se que para o zelo da saúde laboral dá-se a importância ao estado físico e mental do indivíduo, podendo uma desequilibrar a outra pelo fato de estarem inter-relacionadas.

A consciência das empresas sobre a avaliação psicossocial, como uma medida de controle, pode contribuir para identificar quem está em risco e assim adotar novas medidas de prevenção no sistema de trabalho e comportamento seguro.