A ergonomia, em sua essência, significa a adaptação do trabalho ao homem. Entretanto, em tempos de Covid-19 houve transformações abruptas no modo de trabalho das empresas, criando assim, novas formas de trabalhar.

Daí várias empresas optaram ou foram instadas a implantar o home-office. O funcionário acostumado ao ambiente laboral, equipado e preparado para a execução de sua tarefa, teve que adaptar em sua rotina doméstica um local para executar suas atividades. O questionamento levantado neste artigo: como tornar ergonômico um ambiente projetado para ser um quarto ou uma sala?

Temos que ter em mente que nem todo colaborador vai ter acesso a uma cadeira ergonômica, uma mesa ajustável ou a um apoio para pés. Porém, existem vantagens, como deixar o ambiente organizado conforme suas necessidades, liberdade maior para pausas e atender às suas necessidades fisiológicas.

Procurando responder o questionamento, creio que trabalhar deitado na cama não é eficaz e na verdade, pode trazer a sensação de que o colaborador não precisa executar certa demanda e que normalmente ele atenderia em seu posto de trabalho normal.

Acredito que se possa escolher um ambiente que possua uma escrivaninha ou mesa com largura, profundidade e altura adequada possibilitando que o operador apoie seu punho e antebraço no mesmo nível, evitando flexões que possam causar lesões por esforço repetitivo (LER).

Em relação à cadeira, dificilmente, como já foi mencionado anteriormente, estará disponível uma com cinco rodízios, apoio ajustável para costas, apoio para braços, assento regulável e estofado em densidade adequada. Recomenda-se então que seja utilizada uma cadeira que possua o encosto para o dorso e assento plano.

Caso siga desconfortável, é possível colocar uma almofada como apoio às costas, permitindo que o trabalhador fique em uma posição menos prejudicial à sua coluna É vital que ele consiga firmar a planta de seus pés no solo e caso não consiga, pode providenciar uma plataforma para que possa apoiar seus pés, como um caixote de madeira, solução simples e de custo baixo. A iluminação do ambiente pode ser natural, caso a atividade seja executada durante o dia, ou artificial, dando preferência por uma cor fria, mais conhecida como luz branca.

Quanto à ventilação é importante evitar compartimentos fechados, sendo que o ideal é manter janelas abertas permitindo que a ventilação natural renove o ar ambiente. Organizar o espaço de maneira que os meios ou corredores de circulação não sejam obstruídos. Posicionar as ferramentas próximas ao posto de trabalho, facilitando sua utilização.

Além de todas essas medidas, a Educação Postural é de extrema importância para o não adoecimento físico. O colaborador deve se reeducar e observar sua permanência em posição inadequada por muito tempo, como curvar o dorso, sentar-se esparramado, não apoiar o punho e antebraço, não apoiar os pés, entre outras inadequações. Deve-se corrigir imediatamente esse ato falho.

O ser humano tem como uma de suas características principais a capacidade de se locomover, agir e reagir. Portanto, aquele colaborador que passa muito tempo sentado está exposto a riscos como lombalgias, tendinites, dores no pescoço, problemas de circulação entre outros.

É essencial que siga a Norma Regulamentadora 17 que afirma: deve haver pausas para descanso, caso seja atividade com entrada de dados; deve haver, no mínimo, uma pausa de dez minutos para cada 50 minutos trabalhados. Temos assim, um ponto bastante positivo no ambiente doméstico, pois o funcionário conseguirá fazer seu tempo de trabalho e de pausa, conforme suas necessidades.

No que se refere à empresa, é de vital importância que ela acompanhe seu colaborador, que o mantenha informado sobre os procedimentos de higiene e precaução contra o Coronavírus, que notifique aos órgãos responsáveis caso o colaborador apresente sintomas ou contato com alguém que tenha contraído a covid-19 e o afaste da execução da tarefa, mesmo que esteja em home-office.

Um dos aspectos que mais causam preocupação é a saúde mental dos colaboradores, a situação de pandemia, a falta de contato com a família e amigos, a ausência de socialização tornam-se gatilho para adoecimento mental ou emocional. É essencial que a empresa realize ações que ajudem a seus funcionários a manterem o emocional estável. Um estudo, citado pela Revista Veja, da UERJ (Universidade do Rio de Janeiro), apresentou dados em que os índices de casos de depressão tiveram um crescimento de 50% e de ansiedade de 80%, atingindo mais severamente mulheres, pessoas dos grupos de comorbidades e sedentários. Conforme o estudo, quem teve acesso às terapias por meio da internet e praticou exercícios físicos apresentou índices menores de doenças psicológicas.

É necessário que a empresa alinhada com seu SESMT (Serviços Especializados em Engenharia de Segurança e Medicina do Trabalho), promova acesso às psicoterapias via internet e incentive a prática de atividades físicas, explanando os vários benefícios de sua execução.

Como podemos perceber o home-office não afasta todos os problemas que estão presentes no dia-a-dia do trabalhador, pelo contrário, com a falta de ferramentas e condições mínimas de postos de trabalhos adequados, o colaborador estará exposto a uma gama de agentes de riscos sejam ele físicos ou mentais.

O que defendo é a adaptação do ambiente doméstico (o home-office), de maneira que o colaborador se sinta mais confortável e confiante, menos exposto aos riscos ergonômicos. Creio que a empresa fazendo ações para manter seu funcionário informado e amparado, pode fazer com que esse período de trabalho em casa se torne menos estressante e mais produtivo, sempre recorrendo à NR 17 para embasar esse amparo.

É importante deixar o colaborador ciente de que ao passar a pandemia, voltaremos a realizar nossas atividades, sejam elas laborais ou não. Claro que em um novo modelo, mais informado de maneira contínua quanto aos procedimentos de higiene, aos protocolos de saúde, ao respeito aos colegas e a si mesmo. Resistir a uma pandemia, historicamente, muda o ser humano e essa mudança se faz essencial não só dentro, mas fora do ambiente de trabalho.