Apesar de parecer um fenômeno individual, uma decisão da própria pessoa, o suicídio deve ser entendido como um fenômeno multicausal, sendo a expressão de um processo de crise, que se desenvolve de forma gradual (BRASIL, 2017) podendo ser influenciado por diversos fatores sociais que agem simultânea e cumulativamente aumentando a vulnerabilidade de um indivíduo ao comportamento suicida.

De acordo com a OMS (2014) fatores como dificuldade no acesso aos cuidados de saúde, disponibilidade fácil dos meios para suicídio, relatos inadequados da mídia sobre o assunto, estigma contra pessoas que procuram ajuda, sofrimento intenso, problemas de saúde mental e abuso de substâncias, discriminação, sensação de isolamento e falta de rede de apoio sociofamiliar, violência, relações conflituosas e abusivas, perdas financeiras, podem aumentar a vulnerabilidade das pessoas ao suicídio.

De acordo com os dados do Sistema de Informação de Agravos de Notificação – Sinan de 2006 a 2020, no Brasil, os desempregados e os aposentados/pensionistas, ocupam a segunda e a terceira atividade/ocupação de maior número de ocorrência de lesão autoprovocada, incluindo suicídio, entre os homens, ficando atrás apenas dos estudantes. Esses dados apontam para o desemprego e para a situação de pensão/aposentadoria como um possível fator de risco para o suicídio.

Os trabalhadores agropecuários em geral configuraram o grupo de pessoas, inseridas em uma atividade produtiva (CBO válidos), com os maiores números e as maiores taxas de notificação de lesões autoprovocadas no Brasil no mesmo período.

A situação de desemprego, a perda recente do emprego e falências são fatores que agravam as condições sociais e geram consequências à saúde e bem-estar da população, principalmente durante momentos de crises econômicas. O desemprego e falências provocam impactos financeiros importantes para as famílias tendo como consequência um empobrecimento social, aumento de endividamentos, podendo gerar crise familiares que se expressam, muitas vezes, pelo aumento dos divórcios, da violência e, consequentemente, das desigualdades sociais. As altas taxas de desemprego atuam como fator estressante, causando insegurança quanto à manutenção do emprego impactado diretamente o estado de saúde dos indivíduos, provocando danos, especialmente à saúde mental.

Em situações de crise econômica, há um aumento da incidência e prevalência de ansiedade, depressão, estresse, abuso de álcool e outras drogas, elevando também ao aumento do número de casos de suicídio.

Além das consequências das crises econômicas e dos impactos financeiros causados por situações de desemprego e falências, o suicídio entre os homens também está relacionado a uma visão hegemônica de que os homens devam desempenhar o papel de provedor familiar.

Nesse papel, está a noção de honra e responsabilidade dos homens em manter as mulheres e crianças, o que reproduz uma supremacia masculina, que marginalizam as mulheres, mas também prejudica o homem que acaba por descuidar de sua saúde, negar riscos e deixar de buscar ajuda diante de qualquer possibilidade de falha na função de provedor.

A Música “Um Homem Também Chora” de Gonzaguinha, demonstra o valor culturalmente atribuído ao trabalho na vida de um homem. O trabalho é visto como honra e na ausência deste “se morre, se mata” e “não dá para ser feliz”, conforme diz o trecho a seguir:

Um homem se humilha
Se castram seu sonho
Seu sonho é sua vida
E vida é trabalho

E sem o seu trabalho
O homem não tem honra
E sem a sua honra
Se morre, se mata

Não dá pra ser feliz

Problematizam padrão de masculinidade socialmente dominante como fator de vulnerabilidade para o suicídio de homens idosos e identificaram que o afastamento do trabalho a aposentadoria é um fator associado ao sofrimento, perda de sentido de utilidade, capacidade e valor social. Para os homens, a perda do status que o trabalho ou o emprego lhes confere pode ser um fator associado ao suicídio uma vez que a ausência das atividades laborais cria a sensação de falta de identidade e lugar social.

O desemprego e desamparo econômico podem atuar como gatilho para o desejo de morte, uma vez que, culturalmente, honrar os compromissos e atingir sucesso econômico para muitos homens, são valores considerados fundamentais e a perda do emprego muitas vezes é entendida como incompetência e culpa do próprio trabalhador.

Essa lógica foi observada em diversas populações camponesas que culturalmente tem nas categorias “terra”, “trabalho” e “família” os pilares para a construção de uma ética, cujo principal objetivo é assegurar a reprodução física e social do grupo doméstico. (Minayo et al. 2012 ) Para muitos desses grupos, e principalmente para os homens, o trabalho é entendido como um dever sendo cada indivíduo responsável pelo êxito e pelos próprios processo de acumulação de riquezas ao longo da vida, o que dificulta a aceitação dos reveses econômicos, já que a responsabilidade é individual frente à fortuna ou à ruína.

Além da forte identificação do trabalho como honra, e a ausência deste como perda de valor social, no contexto do trabalho rural, outros fatores também entram em cena que podem estar associados ao aumento da vulnerabilidade para o suicídio.

Diversos estudos apontam a relação entre a exposição aos agrotóxicos, e o surgimento de transtornos mentais. Além de serem utilizados como meio/método para o suicídio, alguns grupos de agrotóxicos afetam o sistema nervoso central, podendo levar os indivíduos que lidam continuamente com esses produtos, a desenvolverem transtornos mentais e comportamentais que se manifestam como: irritabilidade, depressão, nervosismo, inquietação, distúrbio de memória e da cognição, ansiedade, insônia, entre outros, podendo se tornar transtornos crônicos.

Ademais, as populações rurais, muitas vezes vivenciam vulnerabilidades que incluem condições de baixa renda, condições de trabalho precárias e extenuantes, baixo acesso à educação, contratos precários de vendas das produções estabelecidos com empresas multinacionais, entre outros, que somam fatores de risco para o aumento de transtornos mentais e casos de suicídio (FREIRE et al. 2013; MEYER et al, 2010).

Nesse sentido vale reforçar a importância de olhar para o fenômeno do suicídio, seja ele na população masculina ou entre outros grupos específicos, como um processo complexo, multicausal para o qual é necessário que seja compreendido dentro de um contexto biopsicossocial.