Nestes 20 anos trabalhando como colaborador, consultor e empreendedor, tive a oportunidade de conhecer diversos modelos e práticas de gestão de pessoas. Foram mais de três mil empresas atendidas durante minha passagem por uma instituição de fomento ao empreendedorismo e mais de 180 na Prosphera, na qual sou um dos sócios e consultor. Durante toda essa trajetória, vi diversos exemplos de pequenas empresas que se tornaram grandes pela atuação de seus gestores. Gostaria de compartilhar quatro histórias incríveis, que comprovam o impacto que as boas práticas de gestão proporcionam para as empresas.

Muitos gestores não tinham a menor ideia de que existem alguns tipos de líderes. Eles, naturalmente, agiam de acordo com suas convicções e com a experiência adquirida ao longo dos anos. Par alguns, aquela era a primeira experiência como gestor e dono de empresa, outros nunca foram funcionários, porque começaram muito cedo como sucessores da empresa. Havia os ricos pelo histórico familiar e os pobres, que foram empreender para conseguir levar comida para casa. Então, a primeira coisa da qual tenho certeza é que um bom gestor existe independente da sua origem, escolaridade ou condição social. O que pesa muito são suas crenças e valores. Isso, sem dúvida, é nítido em cada um deles.

– Artur

Jovem descendente de japoneses, Artur saiu do Brasil para trabalhar no Japão e voltou após 4 anos com uma reserva para começar um pequeno restaurante de rodízio. Sem muito dinheiro para investir, ele mesmo fez balcões, elétrica e decoração do restaurante. Depois de inaugurado, porém, viu que o piso estava horrível.

Ele não tinha noção de como arrumá-lo, porque os orçamentos dos pedreiros da região eram muito maiores do que havia em caixa. A solução veio da funcionária, contratada para ser auxiliar no restaurante. Ela perguntou se havia dinheiro para comprar os pisos e argamassa. Artur respondeu que era o que ele tinha e que faltava o valor para cobrir a mão de obra.

Então, a colaboradora pediu que ele comprasse os materiais e afirmou que ela mesma assentaria os pisos no domingo, quando o restaurante estivesse fechado pela manhã. Ele se surpreendeu que aquela moça soubesse fazer aquele tipo de trabalho e explicou a ela que não conseguiria pagar pelo trabalho extra. Ela respondeu que já estava pago, pois depois de dezenas de tentativas de conseguir um emprego formal, Artur foi o único que acreditou nela mesmo sabendo que era uma ex-presidiária e deu-lhe a oportunidade de trabalho. Depois, ele soube que por muitos anos ela foi servente de obra e sabia como fazer a colocação de pisos.

– Carlos

Conheci Carlos e sempre admirei seu modo racional e equilibrado. Ele cumprimentava e chamava pelo nome cada um dos mais de 400 colaboradores, perguntava se estavam bem, se a empresa estava ajudando na execução de seus trabalhos, etc. Carlos começou a trabalhar aos oito anos ajudando a limpar o pátio onde ficavam os caminhões da empresa. Curiosamente, anos mais tarde ele se tornou um dos sócios da companhia.

Entre tantas histórias de suas boas práticas de gestão, a que mais gostava era sobre o colaborador que ficava doente. Carlos fazia questão de saber se estava melhor e se precisava de algo como remédios ou cuidados. Chegava a visitar os colaboradores no hospital se fosse algo mais grave. Mais de uma vez, soube que ele ajudava muitos a comprar a tão sonhada casa própria. Ele reconhecia as pratas da casa. Vi muito auxiliar e office boy se tornarem gerentes da empresa. Mais que merecido, sua empresa é a segunda maior do segmento no Brasil.

– Elizabeth

Criou uma forma de gestão que desenvolve as pessoas a ponto delas não saberem até onde vai o próprio potencial. Elizabeth começou em uma empresa com uma pessoa sob sua gestão. Ao final do primeiro ano ela já tinha 5 colaboradores e chegou a mais de 140 sob sua liderança. Passaram por ela mais de 600 pessoas ao longo de 20 anos de trajetória.

A cada conversa com seus colaboradores, ela criticava e fazia as pessoas reconhecerem seus pontos fracos, suas deficiências e desafiava cada um a fazer mais e melhor. A pessoa podia não acreditar, mas a Elizabeth acreditava e ajudava essas pessoas com exemplos, recursos, motivação e apoio. Essa forma de gestão criava a confiança que cada um precisava ter para ir além. Mesmo que tudo fosse desfavorável, parecia ser possível e, no fim, se tornava realidade.

Muitos operadores se tornaram supervisores e gerentes. Outros buscaram novos caminhos em outras empresas. Todos alcançaram sucesso profissional e pessoal, mesmo vindo de origem humilde e subindo os degraus a passos largos. Eu sou prova viva de que esse modo de gestão funciona e ajuda as pessoas. A empresa que a Elizabeth deixou em 2015 se tornou líder do setor de medicina e atua atendendo mais de 150 mil médicos no Brasil.

– Gilberto

Esse é um exemplo de gestor, mesmo sendo a terceira geração no comando de uma empresa. Gilberto está no mundo empresarial desde criança, junto com seu irmão e mais dois sócios. Conversando e convivendo por mais de três anos na consultoria com gerentes, assistentes, operadores, profissionais de caixa e de limpeza, ouvi a maioria dos colaboradores falar sobre o Gilberto com sentimento de gratidão.

Seja pelo respeito, por sua humildade, pela ajuda nos momentos mais difíceis, quando erravam ou não conseguiam executar o trabalho, ele estava sempre prestando apoio e incentivo. Gilberto é daqueles que coloca as mãos na massa e elevava o ânimo da equipe quando o trabalho estava atrasado. Muitas vezes, ajudou a carregar caminhões ou descia para a fábrica a fim de auxiliar seu time. Fazia questão, também, de levar todos para a chácara e comemorar as vitórias.

Mais bacana ainda é que esse jeitão do Gilberto também era visto com fornecedores e clientes. Ele sempre buscava a harmonia e bem-estar de todos. Esse ano a empresa completa 84 anos e, mesmo com essa crise, tenho certeza de que a nova geração, seguindo o exemplo do Gilberto, terá mais cem anos pela frente.

Relembrando esses líderes e gestores, hoje tenho certeza de que a visão de futuro e os alicerces dos seus valores e objetivos foram, ao longo dos anos, demonstrados por meio de boas práticas de gestão. A ausência de pré-conceito do Arthur, a persistência e cuidado do Carlos, o incentivo frente aos desafios e superação da Elizabeth e a grande família do Gilberto demonstram que cada um deles tinha dentro de si a crença inabalável de que o que faziam era o melhor para as pessoas e esses valores eram inegociáveis mesmo que houvessem perdas, prejuízos ou até mesmo ingratidão por parte das pessoas. Eles continuaram firmes em suas convicções.

Assim, podemos concluir que não existe aquela história de que ser aquele tipo ou aquele outro perfil de gestor de pessoas trará os melhores resultados. Acho que vai além. É um aprendizado sem fim de reconhecer quem é você, em que você acredita e se isso pode fazer as pessoas ao seu redor se sentirem bem com sua presença. Ajude as pessoas a serem melhores mesmo que elas próprias não acreditem. Depois de tudo isso, ficará uma marca pessoal, uma lembrança, de que você fez a diferença na vida delas.