Em razão do reconhecimento da gravidade do desemprego que os trabalhadores enfrentam no país, reforçado por um avanço nas políticas liberalizantes características dos últimos anos, de direitos sociais e trabalhistas vemos um grande avanço da crise social no país.

Para falar sobre o tema, convidamos uma das maiores lideranças sindicais do país, Ricardo Patah, presidente da UGT – União Geral dos Trabalhadores, a fim de conhecer sua avalição sobre este quadro social.

ENTREVISTA

Para começar nossa entrevista gostaríamos de saber um pouco sobre o ‘Mutirão do Emprego’.

O senhor pode falar um pouco sobre o Mutirão do Emprego e quais foram os resultados obtidos com essa ação do sindicato?

Na verdade é o nosso quinto mutirão, mas esse foi o primeiro que fizemos através de plataforma online devido à pandemia. As inscrições foram feitas entre 28 de outubro e 9 de novembro.

Os resultados foram surpreendentes, tivemos mais de 302 mil inscritos, sendo que  90% desse total foram mulheres. Também pudemos observar que 198 mil são jovens entre 18 anos a 30 anos.

A nossa juventude não tem amparo nenhum do governo federal. Já começaram as contratações.  Por enquanto somente 23 mil conseguiram emprego; muito pouco, diante do grande número de inscritos.

Esse processo é demorado, pode levar mais tempo para que as empresas analisem e chamem os candidatos até a sua contratação.

Esperamos que esse número possa aumentar bastante e mais trabalhadores possam conseguir trabalho. A UGT, através do Sindicato dos Comerciários está fazendo essa ponte.

O senhor acredita que para solucionar o problema dos altos níveis de desemprego é preciso o envolvimento dos sindicatos? Qual seria seu papel nesta questão?

A participação da UGT e dos sindicatos tem sido fundamental para evitar uma situação ainda pior do que já enfrentamos nesse grande período de desemprego.

A nossa central negociou acordos até o fim da pandemia, participou junto com as demais centrais da implantação do auxílio emergencial de R$ 600, sem o qual cerca de 68 milhões de trabalhadores informais teriam dificuldades de sobreviver.

Ainda estamos batalhando para que esse valor seja pago até o final do ano, para evitar uma pandemia da fome.

O governo federal, de forma equivocada, só está liberando R$ 300, valor que nem dá para pagar uma cesta básica no Nordeste. Imagine então, como ficam as outras despesas, como, saúde, educação, transportes, etc..

Como os sindicatos têm atuado para preservar o emprego e a saúde do trabalhador durante a pandemia?

Uma das nossas bandeiras tem sido o uso dos mutirões do emprego; é pouco, mas já é algo que vemos fazendo com bons resultados em parceria com grandes empresas. Nós, da UGT, já fizemos 5 mutirões de empregos.

Este último, virtual, e percebemos que cada vez mais a busca por um emprego cresce em toda a sociedade.

Apesar dos constantes ataques do governo aos trabalhadores e ao movimento sindical, entidades de diversas categorias negociam cláusulas sanitárias e trabalhistas. Qual tem sido o papel da UGT sobre essa questão?

Mesmo com grandes dificuldades financeiras, continuamos defendendo os trabalhadores.

No nosso setor do comércio e serviços temos um bom diálogo com os empresários e estamos renovando os acordos salariais de forma razoável, embora poucas empresas deem aumento, uma vez que estamos em meio a uma pandemia assustadora e em uma recessão que inviabiliza o crescimento da economia.

Um dos grandes enfrentamentos dos trabalhadores na busca pelo emprego é a exigência de qualificação, que de modo geral é baixa. O que o sindicato tem feito para mitigar essa situação?

Fizemos convênio com o Estado para qualificação, especialmente da juventude, que sai do ensino médio complemente despreparada para conseguir um emprego.

E agora, ainda por cima, temos a revolução 4.0, que exige qualificação em todas as funções.

Até açougueiro tem que saber mexer na internet etc. A participação dos sindicatos na qualificação profissional é fundamental, e somos favoráveis  que os sindicatos se envolvam nessa questão.

É possível o envolvimento efetivo dos sindicatos no processo de formação e qualificação dos trabalhadores?

Seria o ideal, mas nesse momento não há essa possibilidade. Sabemos que as dificuldades dos trabalhadores em se qualificar não são poucas, seja por razões financeiras ou mesmo por falta de oportunidades, daí o grande fosso social da educação e da desqualificação dos nossos trabalhadores.

Os que podem e conseguem se qualificar sempre estarão em vantagens em relação aos menos qualificados, especialmente em um período de grandes avanços tecnológicos.

O desmonte dos direitos do trabalhador observado nos últimos anos, as novas configurações do trabalho e o esvaziamento da ação coletiva têm consequências para a vida do trabalhador? Quais seriam?

As mudanças que o governo está fazendo nas leis trabalhistas só estão piorando a vida dos trabalhadores.

Pesquisa recente do IBGE mostrou que temos cerca de 10 milhões de pessoas passando fome, em todos os estados brasileiros.

Se continuar assim, além da pandemia do desemprego, teremos também a da fome, além da pandemia sanitária, que está matando gente de todas as idades pelo Brasil inteiro, sem que o governo federal se importe com isso.

Parece que Brasília nada tem a ver com a história.

Por fim, quais as suas considerações sobre o atual cenário social diante do agravamento do desemprego? Temos saída?

Se continuar assim, teremos uma crise social perigosa, podendo acontecer assaltos a supermercados para as pessoas tentarem sobreviver.

Somos um dos países mais desiguais do mundo, com uma concentração de renda inusitada. Pesquisa publicada recentemente mostra que seis brasileiros têm mais dinheiro do que 100 milhões de pessoas. É muito cruel.