Iniciei a minha trajetória no universo da tecnologia em uma época em que se consolidou uma robusta metodologia de gestão de projetos, e que é utilizada até hoje, o chamado método “Cascata” ou tradicional. Acontece que, dos anos 2000 para cá, sobretudo no mundo da Tecnologia da Informação, o Manifesto Ágil se popularizou, tornando-se praticamente uma regra. Desde então, multiplicam-se os times de agilistas, ou seja, profissionais que adotam metodologias ágeis, com a promessa de entregas inovadoras, sem a necessidade de meses, e até anos, de desenvolvimento.

Existe uma robusta literatura sobre cada abordagem, é claro, mas apenas para familiarizar os leitores, digamos que o método Cascata envolve uma linha de ação mais cartesiana, que inclui passos e processos bem definidos e documentados. Em contrapartida, os métodos ágeis são baseados em sprints, que são entregas focadas, rápidas, sucessivas e adaptáveis. É inegável que este último fascina muito mais aos olhos de qualquer desenvolvedor de produtos digitais, como soluções web ou apps, por exemplo. Isso porque a metodologia ágil permite que se tenha um protótipo ou uma primeira amostra da solução de forma rápida. Com isso, é possível acessar logo o mercado e realizar aprimoramentos, conforme as percepções, feedbacks e interações dos usuários. Melhor ainda, é possível disponibilizar um produto para dois grupos de controle, fazer alterações distintas para cada um, e adotar definitivamente a mudança que apresentar melhor resposta no teste. Tudo muito rápido e dinâmico.

À primeira vista, pode parecer ao gestor de projetos pouco experiente uma ampla vantagem preferir os projetos ágeis aos tradicionais. Levianamente, há gerações de profissionais mais jovens, os chamados letrados digitais (foram educados já com acesso à internet e tecnologias digitais), que acreditam ser a única metodologia possível, atribuindo um rótulo de obsoleto à metodologia Cascata. Ou ainda, desde que entraram na faculdade ou aprenderam a programar, sequer são apresentados ao método tradicional.

Mas se tem algo que muitos anos de experiência não substituem é a sabedoria que tive ao constatar que toda generalização é ineficaz. Os métodos ágeis possuem sim diversas vantagens, mas tenho segurança em afirmar que nem todo tipo de projeto deva ser conduzido dessa forma. Afinal, quem disse que todo cliente quer ser ágil? Se há um consenso no mundo da gestão de projetos é que o sucesso é medido, sobretudo, pelo atendimento às expectativas das partes interessadas. Se eu, gestor de projeto, sem ao menos realizar um diagnóstico da situação, presumir que o meu cliente (ou patrocinador) deseja ser ágil, me arrisco a dizer que aquela empreitada estará automaticamente fadada ao fracasso.

Existem empresas, e sobretudo pessoas, em que os valores da conformidade, ou até do accountability, são mais fortes do que a agilidade. Vejam, por exemplo, o serviço público brasileiro, que precisa sim, não vamos negar, atender às necessidades dos cidadãos pagadores de impostos de forma mais rápida. Mas isto, jamais, deve se sobrepor a outras obrigações como a transparência e o rigor no cuidado do erário.

E não estamos só falando de órgão público não. Pense naquele empresário que tem um orçamento limitado. Ele não está disposto a bancar mais sprints que se fizeram necessários ao longo do caminho. Pelo contrário, ele quer saber exatamente quanto se planeja gastar para tomar a decisão de iniciar ou não o projeto. E ele é menos eficiente por causa disso? Ele é obsoleto? Eu digo que não. Vivemos em um mundo de recursos escassos, e como andam escassos em nosso país. Toda decisão de gestão tem que ser muito bem embasada. Se a sua bússola for apenas a moda da vez, muito provável que o seu projeto tenha nascido para o fracasso. Mas, se o gestor de projeto souber fazer uma leitura crítica da situação e de suas muitas variáveis, ele saberá incorporar novas tendências – inclusive os métodos ágeis – e adaptar modelos, até que se chegue a um que, de fato, seja o ideal para cada situação.