Ao longo dos tempos a sociedade humana tem transformado o mundo ao seu bel-prazer. Florestas viram pastos; pastagens se tornam extensas culturas de soja, arroz e milho. Rios são retificados e suas várzeas ocupadas por cidades. O ar se torna denso, pesado, difícil de respirar. O microclima é alterado; as ilhas de calor nos centros urbanos atraem chuvas torrenciais para as áreas impermeáveis. As águas das chuvas correm velozes pelas ruas das cidades e provocam enchentes e deslizamentos. Nas cabeceiras dos rios, falta a chuva e o nível de água dos reservatórios de abastecimento diminui.

À medida que interferimos e degradamos o ambiente, nosso bem-estar é comprometido e colocamos em risco nossa própria sobrevivência – 75% das doenças infecciosas emergentes são causadas por vírus que são transmitidos dos animais para as pessoas. Enquanto se multiplicam e se amplificam os impactos causados pelo COVID-19 em todo o mundo, a implementação da Agenda 2030 e dos Objetivos do Desenvolvimento Sustentável se tornam tanto mais urgentes quanto mais difíceis de serem alcançados – erradicação da pobreza, acesso a água potável e saneamento, controle de mudanças climáticas, redução de riscos, proteção dos ecossistemas e da biodiversidade.

Em um planeta interconectado nos esquecemos de nossa intrínseca conexão com a natureza. Ao mesmo tempo em que perdemos serviços ecossistêmicos, que são os benefícios proporcionados pela natureza, perdemos também nossa capacidade de resposta aos problemas atuais e futuros. E se faltam os serviços ecossistêmicos, nos falta água, comida e medicamentos naturais. Quando faltam os serviços ecossistêmicos nos falta polinização, o calor se torna insuportável, não temos mecanismos para controle de erosões e de inundações. Na ausência de serviços ecossistêmicos, não há espaços naturais íntegros como fontes de inspiração, de relaxamento, de renovação das energias, das esperanças e dos sonhos. Perdemos espiritualidade e o sentido de pertencimento gerado por esses lugares.

Frente às consequências de uma crise planetária de múltiplas dimensões expressa em emergência de saúde, emergência humanitária e emergência de desenvolvimento, o comprometimento dos ecossistemas naturais e dos seus benefícios aumenta a fragilidade de nossas parcas opções de resposta e amplia o fosso entre a diminuta parcela da humanidade que tem muito e a grande maioria que tem quase nada.

O reconhecimento da interdependência entre o ser humano e a natureza é crucial para evitar que modificações no ambiente provoquem distúrbios planetários graves que afetam a vida de bilhões de pessoas. O momento exige uma ressignificação sobre quem somos e como nos relacionamos uns com os outros e com a natureza que nos cerca, em uma perspectiva de solidariedade ampla para além das raças, de gêneros, de cor, de etnias, de crenças, de gerações e de espécies.

Em um mundo pós-pandemia, necessariamente precisaremos escolher salvar o planeta e escolher salvar as pessoas que estão ao nosso lado – os mais pobres são os mais vulneráveis à perda dos serviços ecossistêmicos em suas precárias condições de alimentação, saneamento, saúde e moradia.

E é no lugar que vivemos que o milagre acontece: em escala local encontraremos a base para recomeçarmos em condições de equidade, solidariedade e respeito. Turismo de base local; reconhecimento dos espaços naturais de nossas cidades e valorização do homem e da cultura do campo; observação de pássaros, de borboletas e de primatas; cultivo de frutas, verduras e plantas medicinais nos quintais e jardineiras das nossas casas. Nossas crianças envolvidas em brincadeiras de ruas, em projetos de revitalização de praças e vazios urbanos e de plantios de árvores e hortaliças nas escolas. Nossos adolescentes e jovens aprendendo novas-velhas profissões vinculadas ao meio ambiente – o chamado ecomercado de trabalho. E a juventude desenvolvendo suas potencialidades e promovendo o desenvolvimento de suas comunidades ao mesmo tempo em que os ecossistemas e seus serviços são conservados, preservados, recuperados e utilizados de forma sustentável.

Um mundo pós-pandemia exige coragem para reconhecer a natureza interdependente de todas as coisas e de todas as pessoas. Nós somos o planeta que destruímos a cada dia. E podemos ser o planeta que salvamos a cada dia.