É necessário desconstruir a ideia de que “saúde não é coisa de homem”; os tempos mudaram e felizmente essa mentalidade completamente equivocada tem sido cada vez mais rara.

Hoje em dia é comum vermos homens procurarem os serviços de saúde não apenas para o tratamento de doenças, mas também para os cuidados preventivos e de promoção da saúde.

Lançado no final de 2019, o relatório da Organização Pan-Americana de Saúde (OPAS) “Masculinidades e saúde na região das Américas” apresenta um cenário preocupante, isso porque segundo o documento, a sobremortalidade masculina é acentuada na adolescência, mais precisamente a partir dos 15 anos de idade, chegando a triplicar nos primeiros anos da idade adulta.

Ainda, segundo a Organização Pan-Americana de Saúde, as principais causas de morte entre os homens na região são as doenças cardiovasculares, violências interpessoais e traumas causados por acidentes de trânsito, todas essas causas relacionadas à masculinidade tóxica.

Essa masculinidade tóxica aprisiona e, como afirma De Paula e Rocha (2019), “eles não só levam sofrimento psíquico para aqueles que os cercam, como também sofrem e têm perdas significativas em seu bem-estar”.

E essa prisão se dá especialmente devido a estímulos externos dos quais o homem é pressionado a conter suas emoções positivas; infelizmente, para uma parcela significativa da sociedade, o homem é aquele que não chora, que domina, que não expressa, e reprime seus sentimentos, isso porque expressá-los o tornaria fraco, o que não é uma verdade.

Muitos são os sofrimentos causados devido a essa masculinidade tóxica e sua desconstrução é um processo contínuo que pode também gerar desconfortos, mas que ao longo do percurso promoverá saúde e bem-estar, não só ao homem, mas também aos que estão próximos a ele.

Voltando ao relatório da Organização Pan-Americana de Saúde, destaco aqui duas recomendações importantes e necessárias, a fim de promover a melhoria da saúde dessa população:

A primeira delas é “eliminar as barreiras que impedem que meninos e homens acessem cuidados de saúde”; esse é um passo muito importante, porque infelizmente ainda hoje, reflexo da masculinidade tóxica arraigada na sociedade, o homem deve se aparentar sempre forte, saudável e viril, não necessitando de cuidados de saúde, já que a demonstração dessa necessidade pelo homem pode vir a ser encarada como um ponto de fraqueza, o que não é verdade!

Todos precisamos cuidar da saúde e esse cuidado é, e deve ser, desde a tenra idade, dessa forma. A eliminação de barreiras ao acesso à saúde é um importante passo.

A segunda recomendação que destaco é “fortalecer os programas de prevenção e promoção da saúde voltados para crianças e jovens”; o fortalecimento de ações voltadas a esse público é de fundamental importância, pois serão os nossos jovens de hoje os novos homens adultos de amanhã.

Para tanto, estas ações devem levar em consideração o seu papel de influência ao moldar não só a percepção de meninos e jovens quanto à necessidade de cuidados com a saúde, mas também a sua individualidade e papel como cidadãos e sujeitos de influência na sociedade, a fim de torná-los indivíduos promotores de saúde.

Discutir a saúde do homem, desassociada da masculinidade tóxica ainda existente é como dirigir com pneu furado, quando uma hora ou outra você terá que descer do carro para trocá-lo, evitando assim um estrago ainda maior.

É óbvio que a masculinidade tóxica pode e infelizmente ainda causa desastres incalculáveis se comparado ao pneu furado, por isso tem sido hoje tão debatida e combatida, e como diria o ditado, “antes tarde do que nunca”!

Homens! chegou a hora de despertarmos do sono para nos enxergar interna e externamente, de forma que possamos refletir no quanto essa masculinidade tóxica tem nos atingido e atingido a outros, promovendo a desconstrução dessa toxicidade mediante o desenvolvimento de atitudes positivas frente à vida, promoção da saúde e bem-estar, cuidando de nós mesmos e do outro, porque o cuidado também é coisa de homem.