Pensar sobre a cultura alimentar em 2020 é observar que a o hábito alimentar passou pelo processo de globalização. A cultura alimentar é construída a partir de hábitos alimentares onde a tradição e as novidades têm a mesma importância.

Em outras palavras, a cultura alimentar não diz respeito exclusivamente a questões históricas, os hábitos e costumes do dia-a-dia se somam ao que é tradicional e assim vão sendo constituídos novos hábitos.

Os nossos hábitos alimentares estão inseridos em um sistema cultural composto por símbolos, significados e classificações.

Os alimentos encontram-se associados à cultura atribuída pelo meio de origem do alimento. Da Matta afirma que “Toda substância nutritiva é alimento, mas nem todo alimento é comida”.

Com isto o autor diferencia alimento de comida, onde alimento é algo universal e geral, já a comida seria algo preparado com os alimentos, algo comestível e sadio, seguindo uma identidade, definindo assim, um grupo, classe ou pessoa.

Portanto, o que se come, quando, com quem, por que e por quem, é determinado culturalmente, transformando o alimento (substância nutritiva) em comida (Da Matta).

As práticas alimentares, por sua vez, revelam a cultura e as comidas associadas a povos em particular, de uma região determinada. A exemplo disto temos no Brasil o arroz com feijão como nossa identidade nacional.

A comida carrega a história de um povo e auxilia na construção de relações por meio da comensalidade, que é a partilha de alimentos, uma prática característica do Homo sapiens sapiens, desde os tempos de caça e coleta.

Comensalidade deriva do latim “mensa” que significa conviver à mesa e isto envolve não somente o padrão alimentar ou o quê se come, mas, principalmente, como se come. A primeira comunidade que se estabeleceu em torno do alimento pode ter sido a família.

Em contrapartida, a falta de companhia para comer ou a solidão foram fatores apontados, em estudo realizado na Grã-Bretanha, que motivaram os jovens a consumirem dietas de pior qualidade, sendo tal comportamento induzido pelo mercado, com o uso de embalagens e utensílios descartáveis, e de métodos de oferta que os dispensem, permitindo comer vendo televisão ou na frente do computador, em pé ou até mesmo andando.

É provável que esse comportamento tenha surgido junto dos drive-thrus, a partir dos anos 1950. A inovação ocorreu pela introdução do conceito de “rapidez,” uma refeição completa em “quinze segundos” aliada a um intenso apelo publicitário que seduziu famílias inteiras a terem sua refeição ali, a título de passeio ou lazer.

 

Fast Food Globalizante

Assim, surgem as denominações: comida de casa e comida da rua. A presença da casa reflete no alimento, que é feito por alguém, direcionado para alguém, levando em consideração determinados cuidados.

No comer fora, a legitimidade do alimento é delegada a um profissional especializado. A globalização tem contribuído para a hegemonia das culturas alimentares e consequente individualização do comportamento alimentar.

O fast food é um dos exemplos de como um fenômeno local se torna globalizado com sucesso. O localismo globalizado ocasiona sérios impactos ecológicos, econômicos, históricos, sociais e culturais, principalmente para os países em desenvolvimento.

Promove a padronização dos costumes, leva a que muitas das refeições sejam transferidas para outros espaços ou omitidas pelo jejum, acarretando a concentração de volume a ser consumido em uma ou duas refeições ao longo do dia.

Caracteriza-se por um repertório com baixo consumo de frutas, legumes, verduras e laticínios – alimentos in natura, e alto consumo de alimentos ricos em gorduras saturadas, sódio e açúcar – alimentos/produtos comestíveis ultra processados.

A transformação gerada em decorrência da globalização ocasionou dois acontecimentos aparentemente contraditórios: a ampliação do repertório alimentar e a sua homogeneização (Contreras e Gracia, 2011).

Por um lado, a troca proporcionada pelo sistema de produção global permitiu acesso a alimentos de diversas partes do mundo, contribuindo para o intercâmbio de culturas alimentares.

Já o comércio local foi dominado por um mercado de escala global, que disponibiliza os mesmos alimentos em praticamente todas as regiões. São estas as características que o mundo globalizado impõe sobre a alimentação contemporânea, que moldam uma perspectiva de que a alimentação do mundo ocidental, os hábitos alimentares estariam se tornando homogeneizados.

Entende-se como globalização numerosas forças entrelaçadas que estão fazendo com que as fronteiras de todo tipo e em todos os níveis sejam mais permeáveis do que nunca.

Neste sentido torna-se fundamental incorporar “novos olhares” nas investigações de fenômenos sociais contemporâneos, como a comensalidade urbana, a gastronomia, os sistemas agroalimentares, as práticas em torno da alimentação e do corpo, excesso de peso, a obesidade, as doenças não transmissíveis e o estilo de vida.

A promoção da saúde se apresenta como um caminho instigante ao propor dimensões importantes que incluem: o fortalecimento da autonomia dos sujeitos; o autocuidado; a mobilização social; o engajamento de diferentes setores e atores sociais, assim como a valorização das experiências subjetivas e do contexto sociocultural em que os indivíduos estão inseridos, visando promover qualidade de vida.

Qualidade de vida refere-se a uma dimensão eminentemente humana, que diz respeito ao grau de satisfação encontrado nas esferas da vida familiar, amorosa, social e

Profissional.